Xenofobia na BH de 1940

Vencedor do Prêmio Nacional Cidade de Belo Horizonte, livro de João Batista Melo conta a história de duas crianças

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Bem recebido. Escritor acumula prêmios ao longo de sua carreira que é marcada por livros de contos e chega ao segundo romance
Wladia Drummond / Divulgacao
Bem recebido. Escritor acumula prêmios ao longo de sua carreira que é marcada por livros de contos e chega ao segundo romance

Os efeitos nefastos de uma guerra costumam ser lembrados apenas para aqueles que vivenciaram seus dias sangrentos in loco ou tiveram parentes, amigos, pessoas próximas atingidos por elas. Contudo, é bom lembrar que o conflito é gerado bem antes por ideologias, revanchismos e disputas econômicas que podem se alastrar para além das áreas de combate. A relação entre duas crianças, uma menina alemã e um garoto brasileiro, na Belo Horizonte dos anos 1940, durante a Segunda Guerra Mundial, é o mote do livro “Malditas Fronteiras”, de João Batista Melo, que será lançado hoje, na Livraria Mineiriana. A obra foi vencedora do Prêmio Nacional Cidade Belo Horizonte de Literatura, de 2103.

“Eu li que alguns imigrantes alemães, que viviam em Belo Horizonte, foram perseguidos por brasileiros nacionalistas. Um episódio me chamou a atenção: o Colégio Arnaldo, que tinha padres alemães, quase foi invadido por pessoas que eram contra a Alemanha”, comenta o escritor. Vale lembrar, que mesmo antes da ascensão de Adolf Hitler, do nazismo e do anti-semitismo, os alemães já haviam participado da Primeira Guerra Mundial e criado uma série de animosidades com outros países ao redor do mundo. Com a perseguição aos judeus, os ânimos contra alemães ficariam ainda mais acirrados.

Melo, então, foi atrás de relatos de imigrantes que sofreram algum tipo de violência. “Comecei a fazer uma pesquisa sobre o que aconteceu com imigrantes nos países que estavam em luta contra os Aliados (França, Reino Unido, Rússia e EUA). Isso me demandou um volume grande de pesquisa”, garante ele.

Assim o autor compôs a história de duas famílias vizinhas, moradoras do tradicional bairro Santa Tereza, na capital. A história se centra em duas crianças: Valentino, filho de um empresário em ascensão – o pai é contra a presença de estrangeiros no país e eles moram ao lado de uma família alemã, que tem uma pequena cervejaria, comandada pelo avô e o pai de uma menina, Sophie. Ela acaba virando a amiga mais próxima desse menino. A tensão dessa proximidade acontece. Apesar de tudo, eles conseguem viver um relacionamento bem forte e, ao mesmo tempo, o livro traz um passeio pelas duas culturas”, revela.

A escolha por duas crianças é justificada pelo autor. “Até uma certa idade, a criança tem uma contaminação menor pelo ambiente em que ela vive, pelas ideologias que a cercam. Eu queria trabalhar a possibilidade de relacionamento de duas culturas diferentes”, comenta.

Cinema. A ideia de “Malditas Fronteiras”, segundo romance de Melo, é antiga. Seu autor escrevia um roteiro de cinema, que jamais foi filmado, nos anos 1980, quando começou a versar sobre essa relação tensa de povos diferentes. Essa, aliás, é uma atividade que Batista Melo desenvolve simultaneamente à sua carreira de escritor. “O que mais me chama a atenção é que meus roteiros de curta-metragens geralmente são inspirados em obras de terceiros”, se diverte.

O processo de pesquisa e escrita do trabalho se iniciou ainda nos primeiros anos de 2000. Apesar de premiado com outros trabalhos (Prêmio Cruz e Sousa de Romance com seu primeiro romance “Patagônia”, Prêmio Paraná e Prêmio Cidade de Belo Horizonte pelas coletâneas de contos “As baleias do Saguenay”, Prêmio Guimarães Rosa por “O Inventor de Estrelas”), ele demorou quase seis anos para conseguir uma editora que o publicasse. “Depois que abri o livro impresso, pela primeira vez, eu pensei que poderia ter escrito essa ou aquela parte de uma forma melhor. É um processo eterno para mim, eu nunca estou satisfeito”, garante.

Agenda

O quê. Lançamento do livro “Malditas Fronteiras”

Quando. Hoje, às 19h

Onde. Livraria Mineiriana (rua Paraíba, 1.419, Savassi)

Quanto. Entrada franca

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