O mineiro que animou Groot

Carlos Fraiha está por trás dos efeitos especiais de “Guardiões da Galáxia” e já começou a trabalhar em “O Hobbit”

iG Minas Gerais | Renné França |

Criador e criatura. Fraiha trabalhou em vários aspectos do filme, mas focou mais na animação do alienígena Groot, um favorito dos fãs do longa
Arquivo pessoal
Criador e criatura. Fraiha trabalhou em vários aspectos do filme, mas focou mais na animação do alienígena Groot, um favorito dos fãs do longa

Maior bilheteria do verão nos EUA, com quase US$ 500 milhões arrecadados ao redor do mundo e uma continuação já confirmada, não é exatamente uma novidade dizer que “Guardiões da Galáxia” é uma das melhores produções da Marvel, um dos filmes mais divertidos do ano e um dos grandes sucessos de 2014. O que poucos brasileiros sabem é que por trás dos pixels da diversão raivosa do guaxinim Rocket, ou da ingenuidade tocante da árvore Groot, existe o trabalho árduo de um mineiro de Belo Horizonte.

“É muito bom poder ver o filme pronto depois de tantos meses trabalhando nele. Tenho muito orgulho de ter tido a chance de participar de um projeto desta qualidade e desta escala”, conta Carlos Fraiha, animador de 32 anos que vive em Londres desde 2007. Antes de ser contratado para trabalhar nos efeitos visuais da nova produção da grife que virou sinônimo de $$$ em Hollywood, ele já havia participado das séries de TV “Merlin” e “Primeval”, feito videoclipes e até trazido Bruce Lee de volta à vida em um comercial de uísque. E se ainda resta alguma dúvida quanto ao talento do rapaz, ele se encontra atualmente na Nova Zelândia, onde já iniciou os trabalhos na parte final de uma pequena trilogia, pobrezinha e independente, chamada “O Hobbit”.

Formado em publicidade e rádio e TV na UFMG e em design gráfico na Uemg, Fraiha trabalhou como designer durante três anos até ir para a Inglaterra fazer uma pós-graduação em animação de personagens na Central Saint Martins College of Art and Design. O que ele aprendeu ali foi a transformar o impossível em possível, construindo mundos que não existem fora do computador. Enquanto o animador em um desenho é responsável por todos os personagens, objetos e enquadramentos, o trabalho de profissionais como Fraiha envolve inserir elementos animados e criados no computador em cenas já filmadas com cenários, câmeras e atores reais, interagindo com eles como se estivessem ali desde o início. “Normalmente o estilo tende a ser mais realista, para que o público não questione se os humanos filmados e os personagens animados poderiam existir num mesmo universo”, explica.

Na pós, seu projeto de final de curso foi o curta-metragem “Ceci n’est Pas une Mouche”, dirigido e animado por ele e selecionado para festivais de mais de 30 países e premiado no Reino Unido, Canadá, Itália e Austrália. Logo depois, Fraiha já estava trabalhando em diferentes empresas em Londres até chegar à MPC (The Moving Picture Company), que tem no currículo os efeitos digitais de produções como “Malévola”, “O Espetacular Homem-Aranha 2”, “O Homem de Aço”, “Harry Potter” e “A Vida de Pi”, vencedor do Oscar na categoria.

Foi nela que o mineiro fez o trabalho de animação por computador em “Guardiões da Galáxia”. A MPC tinha quase 40 animadores trabalhando no filme em períodos diferentes. A animação foi dividida entre eles e a Framestore, que contava ainda com mais profissionais na sua equipe. “Em geral, um animador recebe uma cena e pode animar todos os personagens nela. Mas em algumas situações, um técnico trabalha em um personagem, enquanto um segundo anima o outro na mesma cena”, descreve.

Personagens animados. Fraiha é um dos responsáveis por um dos personagens de maior sucesso da produção, Groot, o gigantesco alienígena com corpo de árvore que tem voz do Vin Diesel e cujo diálogo monofrásico se tornou um dos memes do ano na internet. “Eu animei principalmente o Groot e Rocket Raccoon. Mais o Groot do que qualquer outro personagem”, revela. O brasileiro ainda trabalhou, em bem menor escala, na nave de Peter Quill (Chris Pratt), a Milano, e em outros detalhes, como o timing de montagem e desmontagem do capacete interativo do protagonista na sequência inicial. “Mas a maior parte do tempo foi dedicada à performance dos personagens”, ressalta.

Isso porque Fraiha revela um detalhe importante a respeito das feições dos personagens digitais do longa. Em vez da captura de movimentos – tecnologia que usa sensores no rosto dos atores e envia dados para o computador como molde digital, presente em sucessos como “O Senhor dos Anéis”, “Avatar” e “Planeta dos Macacos: O Confronto” –, “Guardiões da Galáxia” contou exclusivamente com o talento de seus animadores sem a referência das expressões de um ator. “Todas as expressões faciais foram criadas pelos animadores, o que foi não só um grande desafio como também uma grande realização, e todos temos muito orgulho de poder dizer que a performance vista nas telas foi criada por nós. Houve pessoas do público e na mídia imaginando que a atuação foi capturada de algum ator, mas não houve nenhuma captura de movimentos dos atores para as expressões faciais no filme”, revela Frahia.

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