A vida além do câncer

Conheça a história da mineira que optou por continuar alegre, mesmo com o diagnóstico de um câncer, e criou um blog para ajudar outras pessoas com dicas e histórias de como a vida ainda é bonita

iG Minas Gerais | JULIANA BAETA |

Os amigos e família foram essenciais para Mara passar pela doença com leveza
Arquivo pessoal
Os amigos e família foram essenciais para Mara passar pela doença com leveza

Ao conhecer a palestrante Mara Paula de Souza Alves, de 35 anos, mineira de Belo Horizonte e  formada em tecnologia da informação, as primeiras impressões são muitas. Alegre, confiante, carismática e comunicativa, ela é daquele tipo que atrai as pessoas para perto, com um magnetismo cativante. Mas nenhuma destas impressões mostra, nem de longe, tristeza, dor ou angústia, características quase sempre associadas a pessoas que precisam enfrentar um câncer. Isso acontece porque, diagnosticada com a doença no sistema linfático há quase seis meses, Mara decidiu seguir a premissa à risca e fazer do limão, uma deliciosa limonada.

“Eu percebi que tinha duas saídas. Me entregar, ou lutar com dignidade. Escolhi a segunda opção, porque mesmo que fosse para morrer por causa da doença, ainda seria com dignidade”, diz, com o sorriso no rosto, que lhe é frequente. E foi assim que nasceu o blog de nome sugestivo (sobre)viver. Ali, Mara trata com bom humor e levezas as consequências da doença, como a queda de cabelo causada pela quimioterapia (contrapondo fotos suas de turbante, com a de grandes divas que tornaram a peça tendência, como Greta Garbo e Carmem Miranda), dicas de comidas saudáveis para fortalecer o sistema imunológico para o tratamento, divagações, planos...

Afinal, porque tudo sobre o câncer tem que ser triste? Foi com este questionamento, associado a falta de informações positivas sobre a doença na internet, que Mara decidiu a criar o blog.

“A primeira sensação que a gente tem ao descobrir um câncer é mesmo de estar morrendo. Depois da notícia, eu passei três dias chorando, com os meus amigos e familiares. Foram três dias de tristeza profunda. Mas aí eu comecei a procurar informações na internet, entender o tratamento, saber como viver bem com isso. Eu não queria me tornar um zumbi, uma morta-viva. Mas a maioria das coisas que eu encontrava eram muito toscas. Ao meu ver, era uma visão muito negativa, muito pesada. Mas no meio disso tudo eu encontrei três páginas muito bacanas, e percebi o tanto que é difícil coletar informações que nos ajude a sentir bem durante o tratamento. Aí eu pensei: eu gosto de escrever, tenho uma certa habilidade, um jeito pra isso e, ainda por cima, a escrita é uma terapia, né? Além disso eu achei que isso poderia ajudar outras pessoas, como eu ao descobrir o câncer, que também estão em buscas dessas informações”, contou.

E a gana de viver que Mara esbanja em suas palavras ou em seus sorrisos, nunca a deixou, nem mesmo nas seis sessões de quimioterapia que já realizou. “Quando eu fui raspar o cabelo, já depois da segunda sessão do tratamento, eu não queria que fosse aquela coisa Carolina Dieckman, sabe? [em referência a cena em que a personagem vivida pela atriz raspa o cabelo na novela ´Laços de Família´]. Por isso eu fiz uma seleção de músicas animadas, que eu gosto, comprei champanhe para os meus amigos - e pra mim, uma cidra horrorosa, sem álcool, não se pode ter tudo, né? - e fomos a um salão de beleza que eu adoro. Depois de raspar o cabelo, ainda fiz uma maquiagem poderosérrima, e saímos. Me senti linda.  Foi um momento feliz”, lembra.

A descoberta

Mara conta que procurou um pneumologista após perceber que estava tossindo com muita frequência, o que a atrapalhava em seu trabalho de palestrar. Além disso, ela passou a ter dores muito fortes no pescoço quando tomava bebida alcoólica, além de começar a ter sudorese noturna. “Pouco depois eu recebi a notícia. E coincidentemente, foi justo na época em que eu estava sem plano de saúde. Tive plano de saúde a minha vida inteirinha, mas nesta época, havia acabado de sair de um emprego do qual eu não gostava do plano de saúde, e cancelei. Contratei outro serviço, de forma particular, mas ainda estava no período de carência. Então me desesperei. ´Meu Deus, vou ter que tratar pelo SUS?' ”.

A grata surpresa é que o tratamento pelo serviço público em um hospital de Belo Horizonte foi surpreende para Mara, que tem o tipo de câncer conhecido como Linfoma de Hodgkin, e foi diagnosticada com um tumor no tórax e outro na garganta.

"Recebi um tratamento excelente ali. Paguei a maioria dos exames de forma particular, mas quando comecei a quimioterapia, percebi que não teria jeito. Teria que fazer pelo SUS mesmo, o tratamento é muito caro. Mas ao contrário do que eu esperava, o tratamento ali me surpreendeu. Tanto que nessa terça-feira (26) tive uma ótima notícia: o tumor na garganta já desapareceu. O tempo de carência acaba já em setembro, e a ideia era partir para um hospital particular. Mas vou continuar meu tratamento ali mesmo. Afinal, está dando certo, né?”, conta, animada.

Liga da justiça

Sobre o apoio que recebeu dos entes queridos, Mara se compara a uma história de quadrinhos. “Eu tive que me tornar a Mulher Maravilha, já que decidir enfrentar a vida de cabeça erguida. Careca, mas erguida. Nessa situação, você tem que buscar forças de onde não achava que tinha e eu descobri que, sem a Liga da Justiça, a Mulher Maravilha não vence. Meus amigos e minha família foram essenciais neste momento. Tem vez que o meu marido me olha careca, e fala que eu sou a mulher mais linda do mundo. E eu acredito”, finaliza Mara, aos risos. 

O blog

A média de visualizações no blog é de 100 por dia. "Mas depende do post. Tem dia que tem 1.500 acessos", conta Mara. A página do blog no Facebook já conta com quase 2 mil curtidas. "O retorno é muito bom. Tem gente que me procura pra dizer que o blog ajudou muito, que se identifica por estar passando pelo mesmo problema. Recebo mensagens de gente que nem conheço dizendo: ´olha, eu comecei o tratamento, estava perdida mas achei o seu blog, e agora você é a minha luz no fim do túnel´. Isso tudo me alegra muito”, relata Mara.

Para acessar o blog (sobre)viver, clique aqui.

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