Dialética teatral paraibana

Grupo Alfenim se inspira nos procedimentos do alemão Bertolt Brecht para encenar a parábola “Deus da Fortuna”

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Clássico. Coletivo teatral de João Pessoa estuda o teatro de Brecht e também autores da comédia clássica como Aristófanes e Molière
bruno vinelli/divulgação
Clássico. Coletivo teatral de João Pessoa estuda o teatro de Brecht e também autores da comédia clássica como Aristófanes e Molière

O caldeirão cultural que se costuma dizer e reconhecer na cultura brasileira dá suas provas e sinais de vida, aqui e ali. Ainda que recorrente, chama a atenção do público quando um grupo de João Pessoa, na Paraíba, centra sua pesquisa em desenvolver um teatro dialético, narrativo, inspirado nas peças e pensamentos do teórico, encenador e dramaturgo alemão Bertolt Brecht. A montatem “Deus da Fortuna” traz a chance de conhecer essa miscelânea de influências que inspira a companhia Alfenim. O coletivo faz uma única apresentação gratuita, amanhã, no Sesc Palladium, dentro do projeto Palco Giratório. “O pessoal não espera que um grupo do Nordeste possa se interessar por um teatro narrativo, dialético. As pessoas estranham porque não identificam, num primeiro momento, a cor local tão característica do teatro popular do Nordeste brasileiro. Esse impacto é muito forte, a única coisa que está ali é o sotaque paraibano”, se diverte o diretor Márcio Marciano. A estranheza causada pela estética e as temáticas escolhidas pelo Grupo Alfenim, no entanto, vem a calhar porque elas ressaltam o que para Brecht talvez fosse a característica mais importante do teatro: a potencial reflexão causada e provinda daquela encenação em sua plateia. Isso só seria possível por recursos de não-identificação do espectador com a peça encenada. Daí, nasce o famoso “Estranhamento” ou “Distanciamento”, legados deixados pelo autor alemão. “A gente estuda muito a poética do Brecht, e tenta colocar em prática os princípios de uma cena dialética, historicizida”, garante o diretor. Marciano foi o responsável por levar a obra de Brecht a João Pessoa. Ex-integrante da Companhia do Latão, de São Paulo – talvez o grupo mais reconhecido no país por estudar a obra de Brecht –, o paulistano foi parceiro do encenador Sérgio de Carvalho e esteve presente na gênese do coletivo. Marciano permaneceu com o Latão por 10 anos, mas depois foi viver na Paraíba. “Eu continuei fazendo aqui esse trabalho com dramaturgia. Ccheguei a dar umas disciplinas na universidade e formamos esse coletivo”, relata. Parábola Chinesa. A dramaturgia de “Deus da Fortuna” foi buscar nos cadernos de anotação de Brecht a inspiração para contar uma história em uma China pré-capitalista. “Ele (Brecht) fala de um Deus da Fortuna, muito popular na China, que seria representante do capital. Por onde passa, ele promove a desgraça. Ele seria um deus contraditório por isso. Brecht não chegou a escrever esse texto, era apenas um mote. Por outro lado, “A Alma Boa de Setsuan” (texto, de 1939, em que uma prostituta, Chen Tê, é explorada por várias pessoas que vivem ao redor e decide criar um duplo seu, se disfarçando de Chui Ta, seu primo com uma alma pouca generosa e severa) já traz essa história ambientada na China que versa sobre a bondade e as relações de interesse entre as pessoas e com o dinheiro”, comenta o diretor. Apesar de contar uma parábola chinesa, o grupo foi buscar elementos atuais para compor sua trama. “A história se centra num grande proprietário de terras que dá um salto de qualidade em sua vida financeira. Ele deixa a produção e passa a ser um capitalista da bolsa de valores, do mundo especulativo”, antecipa. Para tratar temática tão complexa, o coletivo buscou a comédia clássica, outro elemento forte na composição cênica de Brecht. “Estudamos Aristófanes e Molière e já que era um universo abstrato, fizemos uma opção por trabalhar com a comédia. Essa história clássica do pai que vende a filha é apenas um pretexto para discutir o atual estágio do capital”, conclui. Agenda O quê. “Deus da Fortuna” Quando. Amanhã, às 20h Onde. Grande Teatro Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1.046, centro) Quanto. Gratuito (senhas distribuídas duas horas antes)

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