O obstinado, autoritário e exemplar Sargento Getúlio

Inspirado em livro de João Ubaldo Ribeiro, grupo Teatro Nu, de Salvador, traz personagem a BH

iG Minas Gerais | gustavo rocha |


Peça se vale de estrutura narrativa para encenar obra de Ubaldo
Marcio Almeida / Divulgacao
Peça se vale de estrutura narrativa para encenar obra de Ubaldo

A honradez e a palavra de um homem são coisas que parecem em desuso. É o que pensa Gil Vicente Tavares, diretor do espetáculo “Sargento Getúlio”, que faz única apresentação em Belo Horizonte, nesta terça, no projeto Palco Giratório, no Sesc Palladium.

O espetáculo, vindo de Salvador, narra a história de Getúlio Santos Bezerra, sargento sergipano, que recebe a missão de prender e levar um preso político de Paulo Afonso, na Bahia, a Aracaju, em Sergipe. É sua última missão antes de sua aposentadoria. No entanto, o panorama político se altera e Getúlio recebe a contraordem de soltar o prisioneiro e sumir. Mas o sargento que havia prometido levar o preso, reitera que irá cumprir a primeira ordem. Segue em desatino à incumbência que lhe foi dada de início. “Getúlio não acata a nova ordem. Ele não muda. Resolve que vai até o final com aquilo”, comenta Tavares.

A propósito, a peça se inspira no livro homônimo de João Ubaldo Ribeiro, que – segundo o diretor – encerra o que é chamado na literatura brasileira de “ciclo do cangaço”. Em seu processo de criação, o espetáculo se valeu de uma estrutura narrativa, parecida com a de um contador de histórias. “Reduzi o livro para apenas 11 páginas, mas mantive o essencial. O personagem é um desses caminhoneiros ou donos de fazenda, que junta um monte de gente ao seu redor”, revela.

Para o diretor, existem dois pontos contraditórios na conduta de Getúlio. “Ele é um homem que prefere viver uma vida curta, mas marcada por uma conduta exemplar, a viver uma vida longa e medíocre. Aquele conceito grego Aretê, que fala sobre o destino de cada indivíduo e que aparece nas ‘Ilíadas’, por exemplo”, pontua o diretor. “Por outro lado, ele tem um lado perverso, é um sujeito autoritário, violento, que se vale da força física para conseguir o que quer, lembrando o coronelismo brasileiro”, completa.

Sobre (buscar) espelhar a obra de Ubaldo em fatos atuais, o artista se mostra contrário. “Essa história de atualizar uma obra é perigosa. É possível falar da realidade de maneira alusiva, como fazia Bertolt Brecht, com seus textos que retratavam guerras de longe para falar daquelas guerras do seu tempo”, comenta ele.

O quê. “Sargento Getúlio”

Quando.Nesta terça, às 20h.

Onde. Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1.046, centro)

Quanto. Entrada franca

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