Celebrando grandes mestres

Orquestra comemora 70 anos de Nelson Freire em duas apresentações com o pianista no Grande Teatro do Palácio

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Ícone. Sucesso reconhecido internacionalmente, Nelson Freire é, para Mechetti, inspiração e modelo para todo músico solista brasileiro
James McMillan
Ícone. Sucesso reconhecido internacionalmente, Nelson Freire é, para Mechetti, inspiração e modelo para todo músico solista brasileiro

Apesar de as apresentações da Orquestra Filarmônica nas noites de hoje e amanhã celebrarem os 70 anos do pianista Nelson Freire, seu maestro, Fábio Mechetti, tem uma confissão a fazer. “A gente tenta trazer o Nelson todo ano e, quando fiz o convite, não sabia dessa efeméride. Ele não parece ter 70, aparenta no máximo 55”, brinca.

E na lógica do “aniversário é nosso, mas quem ganha é você”, Freire acabou do outro lado da história. “Na verdade, dia 27 é o meu aniversário. Ganhei um grande presente, né?”, confessa Mechetti.

Datas à parte, o lendário pianista, considerado um dos maiores músicos clássicos vivos, junta-se à Filarmônica para dois concertos em que vai tocar uma de suas grandes especialidades: Frédéric Chopin. “Ele já tinha feito Brahms, Mozart e vários outros compositores com a gente, mas nunca Chopin”, conta o maestro.

A obra escolhida para as duas apresentações no Grande Teatro do Palácio das Artes é o “Concerto para Piano nº 2”. Com forte influência da música polonesa, e de ritmos como as polacas e a mazurka, a peça foi escrita pelo compositor quando ele retorna ao seu país natal, em 1830. E curiosamente marca também o retorno de Freire, mineiro de Boa Esperança, ao Estado. “Embora ele nunca tenha abandonado Minas”, ressalta o maestro.

A abertura para a apresentação com o pianista também terá um caráter especial. A Filarmônica vai iniciar os trabalhos com “Identidades”, composição inédita do mineiro Leonardo Margutti. A obra foi uma encomenda da orquestra ao músico, vencedor da edição 2013 do festival Tinta Fresca, promovido pela Filarmônica para novos compositores.

“Pensei em um tema musical e o reinventei em formas e ambientes diferentes, criando uma identidade para ele no choro, outra que remete ao samba, à música contemporânea”, descreve Margutti. Para costurar esses diferentes momentos, o compositor buscou inspiração em um lugar inusitado: o “Grande Sertão Veredas”, de Guimarães Rosa.

“Gosto da maneira não-linear como ele organiza a narrativa. Você está contando um caso e, de repente, começa a conversar com a pessoa. Quando volta, está em um tempo diferente da narrativa. Tentei criar uma textura orquestral que faça esse salto entre contextos, só que com ambientes musicais”, explica o músico mineiro.

Em uma noite de aniversários e presentes, Margutti – que assistia a concertos de Nelson Freire antes mesmo de ingressar na faculdade de Música – considera ter ganhado o maior de todos. “Nunca imaginei que uma composição minha fosse ser tocada, muito menos estrear, em um palco onde ele fosse subir”, revela. E comemora que muitas pessoas que nunca teriam contato com sua música vão ter essa oportunidade graças ao mestre. “Elas vão lá por causa do Nelson e quem sabe não gostam da minha obra também?”, sonha.

Encerrando a noite, a Filarmônica apresenta a “Sinfonia nº 15”, do russo Dmitri Shostakovich. Última obra do músico, escrita por ele no hospital pouco antes de sua morte, a peça traz um homem refletindo sobre as várias fases de sua vida – reforçando, mais uma vez, o tom celebratório e reflexivo trazido pelos 70 anos de Freire.

“Ele quis fazer dessa sinfonia um testamento”, explica Mechetti. Segundo o maestro, o primeiro movimento da composição remete à infância, “como se fosse uma casa de brinquedos, com cavalinhos, palhaços e uma atmosfera muito alegre”. Já o segundo marca o conflito da juventude de Shostakovich, entre a influência da música contemporânea de sua época e a repressão do romantismo imposto pelo regime soviético, com o compositor tentando usar essas duas linguagens contrastantes.

O terceiro é a parte mais russa e dançante da sinfonia, e o último é uma descrição da morte. “Ele, inclusive, retrata a experiência dele no hospital, com a percussão representando os aparelhos que ele ouvia ali. A sinfonia termina com uma corda segurando o acorde, como o sinal de um eletrocardiograma quando a pessoa morre. É uma maneira interessante de descrever a morte e fazer um apanhado da própria vida”, sintetiza Mechetti.

Filarmônica

Quando. Hoje e amanhã, às 20h30

Onde. Palácio das Artes – avenida Afonso Pena, 1.537, Centro

Ingressos esgotados

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