A dor como protagonista

Escritor gaúcho Fabrício Carpinejar lança “Me Ajude a Chorar” no Sempre um Papo hoje, em Belo Horizonte

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

Melancólico. No novo livro, Fabrício Carpinejar mostra crônicas que visitam sentimentos originados em rupturas, separações e mortes
Renata stoduto / divulgação
Melancólico. No novo livro, Fabrício Carpinejar mostra crônicas que visitam sentimentos originados em rupturas, separações e mortes

Como poeta e cronista, o escritor gaúcho Fabrício Carpinejar vive de trabalhar suas emoções de forma pública, escancarando o que sente no papel, na internet, no rádio e na televisão. Na sua mais recente publicação, “Me Ajude a Chorar”, o autor reúne textos em que a dor aparece como personagem central. Ele participa hoje do Sempre um Papo, para lançar a obra na capital mineira.

O livro reedita crônicas publicadas na imprensa ao longo de 10 anos, que têm como tema dramas pessoais e íntimos, mas também tragédias coletivas, como a que aconteceu em Santa Maria (RS), na boate Kiss, em janeiro do ano passado.

A cada frase de sua fala entrecortada por longas pausas, o autor elabora teses e lança desafios, como essa, por exemplo, ao falar do papel da crônica e da poesia: “o poeta pesca a emoção e o cronista limpa o peixe”.

Nos temas melancólicos, Carpinejar acredita que dialoga com um inconsciente emocional coletivo. “Falo do casamento, da seleção, da amizade, de todo o amadurecimento que é preciso para ser imaturo. Toda essa incompletude que é de todo mundo. Em qualquer dor existe uma conexão”.

A partir disso, ele não vê diferença entre falar de uma tristeza íntima e de uma tragédia pública. “Somos todos filhos da dor. Ela é um bairro. Toda tragédia coletiva é a realização de um medo pessoal”, afirma.

No livro, ele visita histórias de doenças, rupturas, mortes, separações. “Quando a dor não é inventada, aquele que a encontra se torna imediatamente generoso. Só se é egoísta com uma tristeza imaginária”, diz.

A crônica que abre a coletânea, “Pai de Meu Pai”, para ele é uma das mais fortes e fala de um filho que cuida do pai na velhice (veja trecho abaixo). Entre as preferidas, também cita a de uma senhora que, no leito de morte do marido, tinha como único desejo poder dormir “de conchinha” pela última vez.

Feitos de personagens reais, sejam da empregada doméstica que ele adotou como “mãe secreta” ou da vítima de um acidente aéreo, os dramas, para ele, são próximos. “Todas as histórias começam com um abraço bem dado”, afirma.

Ostentação. Em tempos em que a felicidade é mercadoria obrigatória para ostentar nas redes sociais, Carpinejar vê valor no oposto, na expressão da angústia. “Na medida em que se desabafa esses sentimentos, eles se resolvem. Quando nos envergonhamos de sermos tristes, e não resolvemos, isso se transforma em mágoa, ressentimento, amargura. A tristeza é para ser rápida”, opina.

Iniciativa do próprio autor, a obra foi sendo organizada aos poucos, enquanto outros livros eram lançados. Ele foi, então, colecionando essas crônicas. “Queria um livro que fosse uma espécie de música de câmara. É curto e intenso, quase um sussurro. Quis que fosse despretensioso”.

Como escritor, ele diz que não é preciso muito material para a crônica – basta uma “mecha de cabelo do cotidiano”. De inspiração, cita a forte tradição de cronistas mineiros, como Fernando Sabino, Carlos Drummond de Andrade, Otto Lara Resende, Humberto Werneck. “Minas é um polo da crônica, talvez por ser um formato familiar. Você pode estar falando da rua, mas precisa ter um lugar para voltar”, diz.

Filho de poetas e também um fruto da academia, Carpinejar acredita que sua habilidade para escrever veio da infância solitária. “Não me restringi ao ver e falar, sempre tentei me antecipar ao que o outro sente”, diz, completando com uma última frase de efeito – essa sobre o escrever. “Quem faz terapia é para receber alta. Já a literatura é para aceitar a realidade provisória”.

Agenda

O quê. Sempre Um Papo com Fabrício Carpinejar

Quando. Hoje, às 19h30

Onde. Sala Juvenal Dias (av. Afonso Pena, 1.537, centro)

Quanto. Entrada franca

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave