Diálogos entre duas experiências

“Recosturando Portinari” destaca os processos de criação de Ronaldo Fraga e da restauração de painel do pintor

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Referências. O estilista Ronaldo Fraga se apoia em elementos recorrentes nos quadros de Portinari, como os balões, para conceber instalações, além de roupas da nova coleção
FLAVIA CANAVARRO
Referências. O estilista Ronaldo Fraga se apoia em elementos recorrentes nos quadros de Portinari, como os balões, para conceber instalações, além de roupas da nova coleção

 

Um dos méritos de “Recosturando Portinari”, para o curador Ronaldo Fraga, é a intenção de aproximar o público da arte de um dos principais nomes da pintura brasileira. Em cartaz a partir de amanhã, na Casa Fiat de Cultura, a exposição, que acolhe a nova coleção do estilista “O Caderno Secreto de Cândido”, busca esse objetivo ao compartilhar duas experiências relacionadas à obra do artista.

A primeira delas é o mais recente trabalho de Fraga, que se baseia em pesquisa sobre as pinturas de Portinari. Ali, o processo de confecção das peças é apresentado num vídeo em que ele narra como as referências visuais do pintor aparecem nas suas criações. Paralelamente, há o destaque para outra iniciativa: a restauração recente do painel “Civilização Mineira” (1959), que ganha atenção também por meio de vídeos, fotografias e objetos usados para realizar esse procedimento.

“A relação que temos com Portinari é um pouco engraçada, porque ele me parece ser o nosso mais célebre desconhecido. Todo mundo praticamente já ouviu falar dele, mas poucos são os que de fato sabem quem ele foi e tiveram a oportunidade de ver o que ele fez. Essa exposição pretende contribuir justamente na mudança disso”, diz.

“Civilização Mineira” é, nesse contexto, uma de suas composições talvez menos conhecidas aqui, apesar de estar em Belo Horizonte desde a segunda metade da década de 1960. A peça de 2,34m de altura por 8,14 de comprimento foi encomendada em 1959 para decorar a sede do Banco do Estado de Minas Gerais, no Rio de Janeiro. Em 1967, a obra foi transferida para a capital mineira, onde foi instalada no prédio que abriga agora a Casa Fiat de Cultura, integrada ao Circuito Cultural Praça da Liberdade.

Descobertas. Coordenadora da equipe de restauração, Rosângela Reis Costa diz que a execução da iniciativa durou cinco meses e revelou informações sobre a forma como Portinari desejava exibir seus trabalhos.

“Quando começamos o estudo antes de iniciar a restauração, o painel estava enxertado na parede e em volta dele havia uma moldura. Nós fomos pesquisar, consultamos João Cândido Portinari (filho do artista), e descobrimos que por baixo da moldura existia uma pintura branca original feita por ele. Isso nos mostrou que Portinari não havia feito aquilo para ser emoldurado”, conta Reis Costa.

Ao avaliar como o trabalho aparece refletido, seja nas roupas concebidas por Fraga ou nas instalações assinadas por ele, a restauradora afirma que as propostas inauguram outras vias de se apreciar o painel de Portinari. “A exposição ilumina e traz releituras dessa obra e de todo o seu universo de pinturas. Isso contribui para renovar o olhar das pessoas que provavelmente vão ver aquela peça de outra forma”, diz Costa.

Além disso, Fraga ressalta que procurou intensificar a relação com o painel logo no início da exposição. Na entrada, há um destaque para recortes do painel “Civilização Mineira” (1959), em forma de fragmentos que cobrem três paredes da primeira sala onde são fixados espantalhos de Leo Piló confeccionados com sucata. As esculturas fazem referência a uma figura constante nas composições do artista e servem como porta de entrada a informações biográficas transmitidas por meio de vídeos.

“A primeira coisa que nós pensamos ao produzir essa sala foi fazer com que as pessoas pudessem ter a sensação de entrar na pintura de Portinari. Com os recortes do painel que cobrem todas as paredes, nós produzimos uma espécie de ‘pintura em 3D’. Quem está no meio do espaço é rodeado por aquele trabalho cujos detalhes podem ser apreciados como se tivessem colocados sob uma lente de aumento”, explica ele.

Dali em diante, a visita pode seguir à esquerda, em direção à coleção de roupas, ou à direita, que dá acesso a dois ambientes nos quais o processo de restauração da obra “Civilização Mineira” é apresentado. “É mais um passo significativo para que as pessoas conheçam o valor da peça que temos aqui”, conclui.

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