A bola parou, e a guerra segue

Campeonato nacional de futebol foi adiado devido ao atual clima de tensão na região

iG Minas Gerais | Josias Pereira |

Brasileiro Gustavo Boccoli joga no futebol de Israel há 13 anos
AP PHOTO/ TSAFRIR ABAYOV
Brasileiro Gustavo Boccoli joga no futebol de Israel há 13 anos

O medo pode afetar o ser humano de diversas formas, mas nada se compara ao temor que ronda o psicológico. Essa é a percepção que os jogadores brasileiros que residem em Israel possuem do conflito na Faixa de Gaza.

Desde o mês passado, a comunidade internacional vem buscando acordos para dar fim aos enfrentamentos entre o Estado israelense e os palestinos do Hamas, na região que é conhecida por ser um barril de pólvora. O prolongamento do clima de tensão tem interferido no cotidiano das duas frentes do conflito e, é claro, estende seus reflexos ao futebol local.

Após ameaças do Hamas de bombardear jogos de futebol em resposta aos ataques israelenses na Faixa de Gaza, a Associação Israelense decidiu cancelar o início da Ligat ha’Al, o campeonato local, marcado para este fim de semana.

Outro torneiro prejudicado pelo embate na região Sul do país é a Copa da Liga (ou Toto Cup), uma espécie de torneio preparatório e amistoso para a temporada 2014/2015. Disputado apenas parcialmente, o certame terá prosseguimento durante o ano.

Questão de acostumar. Nessa atmosfera de indecisão e medo, os jogadores brasileiros dividem seu tempo entre os treinos, a expectativa pelas decisões do governo e a tentativa de levar uma vida normal sem se preocupar com o dia de amanhã. Revelado pela Portuguesa, Gustavo Boccoli é talvez o brasileiro que mais tenha se identificado com o estilo de jogo e também com a cultura israelense.

Além de falar fluentemente o hebraico, no ano passado, o meio-campista de 36 anos se tornou um cidadão de Israel e vive com sua família em Haifa, a terceira maior cidade do país e que possui uma população mista de árabes e judeus. Boccoli, que atua no time local, o Maccabi Haifa, 12 vezes campeão nacional, relatou suas impressões sobre o conflito e a situação do futebol local.

“Eu já estou acostumado com este clima em Israel. Não é fácil, não é uma situação boa, mas é algo para o qual precisamos estar preparados”, afirma Boccoli em entrevista a O TEMPO. “O que mais nos afeta aqui é o lado psicológico. Quando as sirenes tocam, as pessoas têm um minuto e meio para procurar um abrigo e se proteger do ataque. Como eu moro longe de Tel Aviv, por aqui, em Haifa (cidade que fica mais ao Norte do país), não tocou nenhuma, mas sei de relatos durante treinamentos de outras equipes. Os jogadores estrangeiros ficam muito apreensivos, mas, dependendo da situação, tudo é contornável. Porém, nem todos os atletas estão dispostos a viver assim”, completa.

A opinião de Boccoli também é compartilhada por Lucas Sasha, outro jogador brasileiro que atua no futebol de Israel. Também meio-campista, o camisa 10 despontou para o mundo da bola no Corinthians e defende as cores do Hapoel Tel Aviv desde o ano passado.

“O maior problema é nunca saber quando essa sirene vai tocar. Já aconteceu de eu estar dirigindo e ter que deixar o carro na rua para procurar um abrigo”, relata o jogador, que pensou em deixar o país devido à instabilidade. “Eu tentei sair daqui, minha família ficou muito preocupada, principalmente meus pais”, diz Sasha.

Mais seguro que o Brasil. Apesar da preocupação com os conflitos, os jogadores valorizam a segurança de se viver em Israel mesmo em tempos de guerra. “Pode até parecer estranho para alguns, mas a situação não é totalmente como a TV retrata. Eu vivo aqui há 13 anos e posso afirmar que a segurança em Israel é muito grande. O dia a dia aqui é muito mais seguro que no Brasil. Podemos andar pelas ruas sem os mesmos problemas que enfrentamos aí. Acredito que isso se deve muito à cultura do povo”, diz Boccoli.

“Mesmo com a preocupação da minha família, eu resolvi voltar aqui para Israel e vi que as coisas não são completamente como as que estão passando na TV. Tratei de os tranquilizar. Sem qualquer tipo de conflito, aqui é um lugar muito bom para se viver. É muito seguro. Agora, se a situação complicar, pode ter certeza de que eu vou ser o primeiro a correr daqui”, conclui Lucas Sasha.

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