Ofensiva israelense em Gaza faz antissemitismo aumentar

Para presidente de conselho alemão de judeus, “esta é a pior época desde a era nazista”

iG Minas Gerais | Flávia Denise |

Mais de 2.000 palestinos morreram na ofensiva israelense em Gaza
Khalil Hamra/ap - 20.8.2014
Mais de 2.000 palestinos morreram na ofensiva israelense em Gaza
“À medida que eu fui crescendo, aprendi que eu era judeu, enquanto o resto das pessoas não era. Eu também aprendi que eu não devia contar isso para ninguém. Só se me perguntassem.” É assim que Lukas*, um judeu belga de 26 anos, começa a explicar por que está se mudando para Israel. Segundo ele, a decisão de mudar envolve muitos fatores – a crise econômica e a falta de emprego na Europa estão entre eles –, mas ele ressalta o antissemitismo vivido na Bélgica.  “Eles não distinguem entre antissionismo e antissemitismo. Eles associam todos os judeus com Israel, mesmo quando eles não são religiosos, mesmo quando eles são críticos às ações do Estado israelense. Na cabeça deles, Israel é a raiz de todo o mal. Eu imagino que eles acham que estão nos dando do nosso próprio remédio, sabe?”, diz Lukas, explicando que sua família teve que tirar o nome da lista telefônica para evitar ataques. Lukas não é o único judeu europeu a ver o crescimento da intolerância. Em uma semana, oito sinagogas foram atacadas na França. Na Alemanha, coquetéis-molotovs foram atirados contra uma sinagoga. Na Holanda, duas mulheres apanharam após levantar a bandeira de Israel em suas casas. Na Itália, o dono de uma rede de lojas encontrou suásticas desenhadas nas suas propriedades. Esses casos ocorreram somente no último mês.  “Esta é a pior época (para os judeus) desde a era nazista”, declarou o presidente do Conselho Central de Judeus alemão, Dieter Graumann, para o jornal “The Guardian”. “Nas ruas, você escuta que ‘os judeus deveriam estar nas câmaras de gás’, ‘os judeus devem ser queimados’. Havia décadas que não escutávamos isso na Alemanha. E quem diz isso não está criticando a política israelense, isso é puro ódio contra os judeus.” Para o cientista político e professor de relações internacionais da ESPM Heni Ozi Cukier, a cobertura jornalística da ofensiva militar israelense em Gaza abastece a visão negativa: “(o jornal) faz uma grande cobertura, chocante e dramática, de uma guerra está acontecendo, mas não dá a mesma importância que para eventos que ocorrem em outros lugares. A mídia contribui para a leitura sensacionalista.”  * O entrevistado pediu para não ser identificado. Cidade “Morte aos Judeus” O vilarejo francês La-mort-aux-Juifs está causando polêmica ao se recusar a mudar o seu nome, que significa “Morte aos Judeus”. Apesar do apelo de um centro dedicado a defender judeus, a vice-prefeita da vila de Courtemaux, que tem jurisdição sobre La-mort-aux-Juifs, declarou: “Nós deveríamos respeitar esses nomes antigos”. A cidade já havia recusado mudar seu nome em 1992. Mulher é espancada na Suécia A sueca Ana Syorgen foi atacada na última semana na cidade sueca de Uppsala por usar um colar com a estrela de Davi. “Uma jovem muçulmana viu que eu estava com a estrela de Davi e cuspiu no meu rosto. Fiquei muito brava e a empurrei”, declarou a mulher, que diz ter sido espancada por pessoas no local, um bairro muçulmano. Testemunhas dizem que ela tropeçou e caiu. Syorgen sofreu ferimentos em todo o corpo. Kosher é retirado do supermercado Uma loja da rede Sainsbury, em Londres, no Reino Unido, retirou todos os produtos kosher de suas prateleiras com medo de que manifestantes anti-Israel, que estavam em frente ao local, atacassem. Um funcionário chegou a defender a ação dizendo que “apoia a libertação de Gaza”. A rede Sainsbury defendeu a ação do seu funcionário dizendo que era uma situação “desafiadora”. Sentimento anti-Israel já vinha crescendo A ofensiva israelense na Faixa de Gaza, que já levou à morte de quase 2.000 palestinos, é um dos motivos pelos quais o antissemitismo cresceu nos últimos meses, mas não é o único. A realidade é que o sentimento antijudeus e anti-Israel vem aumentando nos últimos anos. Em 2005, o Departamento de Estado dos Estados Unidos já havia publicado um documento chamando a atenção para o “aumento da frequência e severidade dos incidentes antissemitas desde o começo do século XXI, particularmente na Europa”. Na época, o sentimento anti-Israel, nascido na desaprovação das políticas nacionais do país, foi apontado como um dos motivos para o crescimento do antissemitismo. Em 2012, uma pesquisa da agência da União Europeia Fundamental Rights descobriu que 66% dos judeus entrevistados sentiam que o antissemitismo estava crescendo, sendo que 76% deles disseram que o sentimento contrário aos judeus havia crescido nos últimos cinco anos. A pesquisa foi feita com 6.000 judeus em oito países europeus – que abrigam 90% da população judaica no continente.

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