Widbook: a sutil balança entre escritos e leitores

Plataforma nascida no Brasil atrai estreantes de várias partes do mundo e já conta com mais de 200 mil usuários; autores e especialistas analisam os caminhos da autopublicação

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Cesar Masilla Sialer
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Produzir um livro hoje é cada vez mais fácil. “Fazê-lo acontecer é que talvez seja a tarefa mais difícil”, observa Julio Silveira, criador da editora Ímã. A opinião dele, que foi também cofundador da Casa da Palavra e coordenador da Nova Fronteira, entre outras, se refere ao desafio de se encontrar leitores para cada novo título que nasce por meio das mais diversas plataformas, sejam elas de caráter artesanal, ou mantidas por pequenas editoras devotas do papel, além daquelas ancoradas no formato digital dos e-books.

Nesse cenário, tem surgido muitas alternativas para quem quer tirar seus escritos da gaveta. Sites como o Widbook, concebido por uma equipe brasileira, cresce ao lado de outras iniciativas estrangeiras semelhantes, com destaque para o Wattpad, que foi responsável por alavancar o sucesso da série “Lost Boys”, da paulistana Lilian Carmine. Os dois serviços se baseiam na possibilidade de colocar autor e leitor em contato direto, ao permitir a qualquer um criar um perfil e subir textos que podem ser submetidos à opinião dos outros usuários.

“Isso é muito útil para você avaliar a qualidade e o poder de uma ideia. Assim é possível saber de imediato se aquilo que está produzindo desperta interesse ou não”, observa Lilian Carmine, que em 2012 fechou um contrato com a Random House, atualmente a maior editora do mundo.

Ela recorda que o convite veio após o seu livro atingir à marca de cerca de 32 milhões de acessos no Wattpad, ali publicado em 2010. O volume de visualizações destacou o trabalho dela como o mais lido do site. “Eu escrevi em inglês pensando justamente que a língua facilitaria a leitura de pessoas que vivem em várias partes do mundo. Na época, eu não conhecia outro site, além daquele que é canadense, para fazer isso. Quando a editora me procurou, há dois anos, eles imaginavam que eu era uma escritora inglesa”, relata Carmine.

A trajetória dela é uma das experiências de sucesso que, apesar de ainda não serem muitas, revela como as casas editorias estão atentas às iniciativas capazes de revelar novos nomes. Algo que vem acontecendo desde a eclosão dos blogs. Desde março, por exemplo, a editora Leya inaugurou a Escrytos, que recebe manuscritos originais de autores interessados na autopublicação de e-books. De acordo com Pascoal Souto, diretor editorial da Leya Brasil, até o presente, a editora tem recebido especialmente autores de ficção, poesia e algumas teses acadêmicas.

“Acreditamos que a demanda por esse tipo de serviço tende a crescer na medida em que o e-book se torne mais popular. Ainda recebemos muitos pedidos de autores que querem publicar seus livros em papel sob demanda, e a Escrytos não oferece essa possibilidade. O Brasil ainda não viveu também um grande fenômeno de autopublicação, como já aconteceu em outros países. Quando algo semelhante ocorrer por aqui, e é bem provável que ocorra em breve, a autopublicação com certeza crescerá”, acredita Pascoal Souto.

Projeçao . No caso de Carmine, sua ficção não só lhe rendeu projeção internacional como abriu caminhos aqui, invertendo o percurso de outros nomes que só conquistaram espaço lá fora depois de serem reconhecidos internamente. “Logo depois de acertar a produção de uma trilogia com a Random House, eu fui procurada pela Leya, que já publicou o primeiro volume dessa história no Brasil. Lá fora já saiu o segundo título da série e agora estou finalizando o terceiro”, afirma Carmine, que ressalta a circulação de “Lost Boys” também em Portugal, Grécia, Itália e Turqia.

Conhecida pelo ofício de ilustradora de livros infantis antes de se enveredar pela escrita, a brasileira explica que a publicação de uma história naqueles espaços funciona, portanto, como um test-drive. “Se o texto é bem aceito, é muito provável que ele chegue até as livrarias”, resume Carmine. Isso significa que essas comunidades virtuais, embora permitam uma interação inédita entre escritor e leitor, apontam um percurso não muito diferente dos meios tradicionais, em que pesa a potencialidade da proposta desenvolvida.

“Eu vejo vários sites de autuplicação que prometem fazer livros, agendam uma data para o lançamento e depois de fazer tudo isso aquele trabalho morre. O título não alcança muito mais do que o círculo de familiares e amigos, gerando uma grande frustração. Muitas vezes, as pessoas estão apenas interessadas em realizar um sonho e isso não significa que o livro vai decolar. Pode não acontecer absolutamente nada e o que se está de fato comprando é um objeto decorativo ou que vai ficar entulhado na garagem”, opina o editor Julio Silveira.

Sem garantia. Felipe Lindoso, jornalista, tradutor e editor, observa que acompanha no movimento de autopublicação todo um mercado crescente de editores free-lancers, capistas, entre outros profissionais especializados em divulgação pelas redes sociais. Toda essa infraestrutura disponível não garante, no entanto, que a venda dos títulos autopublicados vá além da média de 12 exemplares. Esse dado, de acordo com ele, foi revelado por Ed Nawotka, editor da Publising Perspectives, importante newsletter focada no mercado editorial mundial, durante uma palestra recentemente realizada em São Paulo.

Seguindo esse raciocínio, um grande volume de livros, virtuais ou impressos, pode se acumular à espera de alguém que se aventure a lê-los. Em relação a isso, Lindoso lembra o filósofo e crítico mexicano que escreveu o título “Livros Demais”, traduzido por ele.

“No prefácio à edição brasileira, comentei que a tese do Zaid é que cada livro tem um número ideal de leitores. Mas isso pode se reduzir aos familiares e meia dúzia de amigos. Porém, um hipotético autor de um tratado sobre formigas transgênicas não se conforma com seus 50 possíveis leitores e acha que seu livro pode vender tanto quanto os de Paulo Coelho. Pelo menos, com a autopublicação, esse autor não pode por mais a culpa na editora que teve a audácia de publicar seu livro. Agora ficou tudo por conta dele mesmo”, conclui.

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