A novela da vida real

Vem da TV a maior lançadora de tendências; quando se trata de moda, não tem pra ninguém, a novela é a rainha do pedaço

iG Minas Gerais | Deborah Couto |

A perua Tuane de “Império” tem um dos looks mais pedidos ao CAT (Central de Atendimento ao Telespectador da Globo)
Ellen Soares
A perua Tuane de “Império” tem um dos looks mais pedidos ao CAT (Central de Atendimento ao Telespectador da Globo)

Quem anda viciado no seriado do momento provavelmente deve ter se esquecido do poder de bala que a novela tem ao influenciar o mercado de moda. Mas não renegue seu passado. Vai depender da idade, mas quem aí não se lembra das meias de lurex, febre na época em que Sônia Braga fervia na era disco de “Dancin’ Days”? Saiu até na “Newsweek”. E dos lenços e laços coloridos, das pulseiras de Viúva Porcina, de “Roque Santeiro”? Mais anos 80 impossível. Da linda e vamp Natasha de Claudia Ohana? Da gata natural de cabelos molhados (e da trilha sonora divina, mas isso dá outra pauta...) Duda (uma jovenzita Malu Mader), de “Top Model”?

De fato, as novelas andam meio caidinhas. Ainda há fenômenos, como “Avenida Brasil” (2012), de João Emanuel Carneiro, que fez as ruas ficarem tão vazias quanto em dia de jogo de Copa do Mundo. Mas há mais fiascos, tipo “Em Família”, com selo Manoel Carlos de qualidade, que teve média de 34,8 pontos no Ibope em seu último capítulo. A marca revela 10 pontos a menos que sua antecessora e é a menor já registrada num encerramento de novela das nove da Rede Globo.

Apesar desse tipo de fracasso acontecer, a Associação Brasileira da Indústria Têxtil e Confecção (Abit) revela em pesquisa a vitalidade da indústria da comunicação para o consumidor. A televisão é apontada por 72% dos entrevistados como principal fonte de informação de moda pelos consumidores, contra 32,1% que acompanham semanas de moda. 62,1% apontaram a maneira de se vestir das personalidades da TV como grande influência. Isso quer dizer muita coisa.

“Quando assistimos a uma novela, criamos uma relação afetiva com o personagem. Acompanhamos sua postura corporal e enxergamos uma pessoa de verdade que, na maioria das vezes, está legal com aquela roupa”, nos diz a professora do curso de moda da Fumec Carla Mendonça. “Há ainda uma vontade de parecer com aquela pessoa”, diz Mendonça, citando a Deborah Secco como Darlene na novela “Celebridade”. “Ela lançou moda com aquelas minissaias, meias curtas e sandálias. Aquela roupa é difícílima, parte toda a silhueta. Mas as pessoas não se importavam, queriam se parecer com a Deborah Secco.

O espírito do tempo

É esse o fator chave para que o visual de um personagem de novela se torne desejo na vida real. Marília Carneiro _ a maior figurinista da Rede Globo e criadora de clássicos como os figurinos de “Dancin' Days” e a antiga versão de “O Rebu” _ conta que quando trabalhou em “Anos Rebeldes” (1992) recriou na juventude não só uma vontade de se vestir como nos anos de 1960. “O que destaco nessa novela é que certamente o que os jovens faziam na TV influenciou o comportamento dos jovens da vida real, que saíram pelas ruas no movimento dos caras-pintadas”, conta ela.

Carla Mendonça exalta essa aptidão de captar o espírito do tempo. “O figurino tem de traduzir o que as pessoas terão vontade de vestir agora. Isso também tem a ver com a moda desfilada nas passarelas. Só quem trabalha no mercado saberá identificá-la na TV. Também é importante, é claro, a pessoa que está vestindo a roupa”, diz Carla Mendonça. “Tem gente que vende até terreno na lua”, completa. A professora cita a novela “Boogie Oogie”, das sete, como uma forte tradutora da tendência atual, do setentismo. “Além do belíssimo figurino de festa de ‘O Rebu’”, arremata.

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