Jogos de poder nas praças

Primeira Campainha estreia hoje “À Tardinha no Ocidente”, criado pelo projeto Pé na Rua do Galpão Cine Horto

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Atrizes. Marina Viana, Marina Arthuzzi e Dayane Lacerda em peça que brinca com memória política
FLÁVIO CHARCHAR/DIVULGAÇÃO
Atrizes. Marina Viana, Marina Arthuzzi e Dayane Lacerda em peça que brinca com memória política

Em meio à campanha eleitoral, a Primeira Campainha vai às ruas refrescar a memória dos cidadãos sobre a história politica brasileira, com um espetáculo tão lúdico quanto crítico. “À Tardinha no Ocidente” estreia hoje, às 16h, na praça Floriano Peixoto, com primeira incursão das atrizes Marina Arthuzzi, Marina Viana e Mariana Blanco no teatro de rua.

“A gente fica até com medo de ser presa às vezes”, brinca Arthuzzi. “O país não tem memória, então tentamos recolocar as coisas que aconteceram (na história política) a essa altura do campeonato (a campanha eleitoral) para as pessoas verem que dá tempo, só depende da gente”, diz.

A nova criação foi gestada pelo projeto Pé na Rua, do Galpão Cine Horto, e conta com mais três integrantes: Denise Lopes Real, Dayane Lacerda e Byron O’Neal. Juntos, eles partilham com o público uma cronologia desde a Velha à Nova República, passando pela morte de Getúlio Vargas, o Ato-Institucional n. 5, a Constituição de 1988 e o confisco das poupanças nos anos 90, até as manifestações de junho de 2013. Tudo em forma de brincadeira – ou de um jogo de poder.

Entre os clássicas de rua, como pique-cola, queimada, polícia e ladrão, futebol, pique-esconde e “o mestre mandou”, o grupo assume personagens infantis, batizados de Ana (Anarquia), Mona (Monarquia), Dita (Ditadura), Rê (República) e Top (Utopia). “Essas crianças trazem um pouco do que cada uma dessas coisas representam na forma de jogar e se relacionar: a Ditadura sempre querendo mandar; a Monarquia acha que tudo foi Deus quem deu a ela; a República, reivindicando direitos e, às vezes, tirada do jogo; a Anarquia avacalhando; e a Utopia – como diz a moça do bar ao lado do Cine Horto – é a fadinha”, brinca Arthuzzi.

A dramaturgia nasceu de um argumento criado por Marina Viana em um postno blog Sandía el Perfumen, em 2010, chamado “Desabafo sobre o Brasil República”. Lá, ela já tratava a sucessão de poderes no país por meio de metáforas líquidas: além do café-com-leite, o chimarrão, a vodka e a coca-cola.

Anárquicas. A parceria com Byron O’Neal, que dirigiu a Primeira Campainha no início do ano, ganha novos contornos sobretudo nos modos de divisão de trabalho. “No ‘Isso É para a Dor’, o Byron era dramaturgo e diretor, essa figura que conduzia as coisas de uma forma mais clara. No ‘A Tardinha...’, a gente recuperou um pouco a autonomia”, comenta Arthuzzi.

As digitais da Primeira Campainha, então, voltam com força em uma “dramaturgia totalitária de Marina Viana anarquizada e revolucionada” pelo resto do elenco – como elas escrevem no programa da peça.

Mesmo que o tema político possa coincidir com o universo do Mayombe (outro grupo do qual as Marinas fazem parte), a diferença é clara para elas: “O Mayombe trabalho o teatro político em um lugar mais poético, e a gente, mais anárquico mesmo”, compara.

A linguagem do fanzine, característica forte da Primeira Campainha, retorna com o excesso de informações e recortes, a sátira e a acidez que são rapidamente reconhecíveis por quem já viu um trabalho do grupo (“Sobre Dinossauros, Galinhas e Dragões” e “Elizabeth Está Atrasada”).

Na rua, porém, tudo ganha tratamento mais leve. “O grupo estudou registros em vídeo sobre teatro de rua disponíveis no Centro de Pesquisa e Memória do Teatro (CPMT), buscou interlocutores como a performer Nina Caetano e fez experiências na avenida Silviano Brandão até chegar ao tipo de trabalho que queria realizar na rua. “Passamos uma semana de imersão em uma fazenda para entender que era personagem e teatro clássico de rua”, conta Arthuzzi.

A vontade de estrear na praça da Estação esbarrou em burocracia e em uma taxa de R$ 11 mil. Diante disso, o grupo ocupa até 7 de setembro outros seis espaços de Belo Horizonte e região metropolitana.  

Acompanhe

Hoje, às 16h, na praça Floriano Peixoto

Amanhã, às 10h, na pça. Milton Campos (Betim)

Dia 30, às 16h, na Barragem Santa Lúcia

Dia 31, às 16h, na pça. JK

Dia 6/9, às 16h, no Parque Municipal

Dia 7/9, às 15h30, no Parque das Mangabeiras

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