Conheça o brasileiro que quer dominar o "soccer" nos Estados Unidos

Carioca Flávio Augusto conta como fez fortuna com uma rede de escolas de inglês e transformou-se no dono do Orlando City, time que contratou o craque Kaká

iG Minas Gerais | JOSIAS PEREIRA |

Grande estrela da equipe local, Kaká é recepcionado com festa em Orlando
MARK THOR/ORLANDO CITY/DIVULGAÇÃO
Grande estrela da equipe local, Kaká é recepcionado com festa em Orlando

A história de Flávio Augusto poderia ser facilmente digna de uma produção cinematográfica, daquelas películas em que a vida ensina que mais do que empenho, é preciso coragem e competência para conquistar. No entanto, obviamente, o bilionário empresário brasileiro, de gostos heterodoxos, entre eles não ver televisão ou muito menos ler livros de romance e ficção, não considera sua história dada a pontos finais. Workaholic por natureza, na mente do empreendedor, que prefere mudar de ares (ou de país) de dois em dois anos, sempre haverá um próximo ato.

Em uma entrevista de quase duas horas, Flávio Augusto, de 42 anos, contou a reportagem de O TEMPO como fez fortuna com uma rede de escolas de inglês e transformou-se em um magnata do mundo da bola. Dono do Orlando City, o mais novo clube da organizada MLS, a liga norte-americana de futebol, o visionário conta com o talento de Kaká para dar corpo à revolução do “soccer” na Terra do Tio Sam, e impulsionar o faturamento de sua mais nova obsessão profissional. História de vida. Filho de pai militar e mãe professora da rede pública, Flávio nasceu no Jabour, um bairro periférico localizado na Zona Oeste do Rio de Janeiro, espremido entre Bangu e Santíssimo. Aos 15 anos ingressou na Escola Naval. ‘Um sonho desde a infância’, confessa à reportagem. Influência patriarcal é claro. Porém, aquilo que tanto desejou não pareceu mais tão agradável. O jovem Flávio deu adeus à vida militar e deu de cara com a paixão. Aos 18 anos, ele arrumou uma namorada de 15, Luciana - com quem é casado até hoje e possui três filhos. Para sustentar os encontros, nada melhor do que um emprego. Pegou emprestado a gravata do pai, passou na entrevista e virou vendedor de um curso de inglês. E foi assim, ‘sem saber falar uma palavra da língua bretã’, destaca a O TEMPO, que Flávio cresceu profissionalmente. Após passar por cargos variados dentro da instituição de ensino, entre eles o de gerência, aos 23 anos, o jovem visionário transformou-se em um empreendedor. Pegou R$ 20 mil no cheque especial, aproveitou o dinheiro da sua rescisão de contrato e resolveu, em comum acordo com sua esposa, fundar sua própria escola de inglês, a Wise-Up, no centro do Rio. “O sucesso foi meteórico. Em três anos, eu já tinha 15 mil alunos. Quando abri minha centésima escola, finalmente eu resolvi estudar inglês”, relata Flávio. Anos depois, o resultado do que muitos consideraram à época como “loucura”. No dia 7 de fevereiro de 2013, exatamente na data do seu aniversário, Flávio vendeu a rede de ensino (que nesta altura do campeonato já era uma holding batizada de grupo Ometz) à Abril Educação em uma transação na casa de R$ 1 bilhão. Investindo no futebol. Após um período sabático em Orlando, na Flórida, a veia empreendedora do bilionário voltou suas atenções ao futebol na Terra do Tio Sam. “Tudo começou ali, vendo meu filho Brenno, jogar bola. Eu o levava para as partidas e via aquela quantidade de crianças praticando o esporte. Via também aquele monte de pais, sempre lado a lado com os filhos durante as competições. Vi ali uma oportunidade. Resolvi estudar o mercado”, diz Flávio. Do estudo ao “pulo do gato”, a transição foi rápida. Assim como aconteceu lá atrás, quando percebeu que faltava no mercado cursos de inglês de rápida duração e voltados ao setor empresarial, Flávio lançou seu toque de Midas no mundo da bola. Comprou 87% das ações do Orlando City (cerca de R$ 152,6 milhões), um clube de segundo escalão nos Estados Unidos, e após investimentos na ordem de R$ 350 milhões, divididos entre a equipe e a prefeitura de Orlando, ingressou o time na MLS. Meses depois, a equipe anunciou sua maior estrela, o meia brasileiro Kaká, ex-Milan e Real Madrid. “Fizemos uma festa para recebê-lo. Mais de 12 mil pessoas foram às ruas de Orlando para recepcioná-lo. Dentro do nosso planejamento, ele é uma figura essencial. Representa nosso crescimento, nossas intenções”, diz o empresário. Torcedor do Flamengo, Flávio diz que nunca pensou em investir no futebol brasileiro. “Sou um empresário, um homem de negócios. Não nasci para fazer caridade a time de futebol”, dispara. “O modelo brasileiro não atrai nenhum investidor”, reforça. Sua decisão pela Terra do Tio Sam é simples. Planejamento, equilíbrio financeiro e perspectiva de crescimento. “Eu tenho objetivo de transformar o Orlando em uma marca global. O futebol chegou de vez ao maior mercado esportivo do mundo. É o esporte da moda. O público americano provou isto durante a Copa. Mais de 200 mil americanos foram ao Brasil para assistir os jogos. Milhares foram às ruas para ver a seleção norte-americana jogar. Esta Copa alavancou a percepção das pessoas sobre o futebol nos Estados Unidos”, aponta Flávio, que pretende colocar sua equipe como uma das rotas de turismo de Orlando. “Daqui a oito anos, nós nos posicionaremos como uma das maiores ligas do mundo. Quero que o meu time vire um ponto turístico, assim como a Disney. Orlando é uma cidade que tem esta vocação. 60 milhões de turistas passam por lá todo o ano. Além de curtir todas as atrações, o turista terá a oportunidade de assistir uma partida de alto nível com craques internacionais”, completa Flávio. E o planejamento vai de vento em pompa. O Orlando City só fará sua estreia na MLS no ano que vem, no entanto, mais de 160 mil ingressos foram vendidos de forma antecipada para a temporada. Com a ajuda de investidores e a prefeitura local, o estádio Citrus Bowl foi reformado e será reinaugurado em dezembro. Uma obra na casa dos R$ 400 milhões. Mas os investimentos não param por aí. Na temporada de 2016, Flávio espera que o estádio próprio da franquia esteja pronto. O projeto da arena foi aprovado pelo condado de Orange. O local terá capacidade para 25 mil torcedores e ficará a duas quadras do Amway Center, o ginásio do Orlando Magic, da NBA. Quando questionado sobre o medo de toda esta empreitada não dar em nada, Flávio Augusto tem a resposta na ponta da língua. “Eu sinto um friozinho na barria sempre, como todo mundo. Mas se você não tiver coragem, visão e competência, você vai ficar estagnado na vida. O que eu posso dizer é que tenho apetite por desafios”, conclui o empresário, visionário, sonhador e também, como fez questão de ressaltar, marido da Luciana e pai do Brenno, Bernardo e Benjamin. As peculiaridades de um bilionário

Após deixar o Brasil por questões de segurança e morar em países como Estados Unidos, Inglaterra e Austrália, Flávio Augusto vive agora em Estoril, Portugal. Seu filho mais velho, Brenno, joga futebol nas categorias de base do Benfica. Comedido na vida pessoal, ele prefere se enxergar como um rico não apegado às extravagâncias.  As únicas exceções são as viagens de primeira classe e a paixão por relógios, alguns deles Rolex.

Além dos investimentos no mundo do futebol, Flávio adquiriu recentemente 50% do portal Administradores.com, segundo dados o maior na área de negócios do país, e detém parte da 2SV, uma empresa especializada na captação de talentos esportivos nos EUA. Na internet, o carioca ainda tem outro Hobby, o “Geração de Valor”, site que criou há dois anos para discutir temas ligados ao empreendedorismo e que tem alcance semanal de 12 milhões de pessoas. O empresário confessa, não possui um gosto muito apurado pela literatura, e passa parte do seu tempo fazendo pesquisas na internet e também no Facebook. Foi pela rede social inclusive, que ele divulgou na última semana – curiosamente no mesmo dia em que concedeu a entrevista para O TEMPO –, a venda dos 18,5% das ações da Abril Comunicação que ainda lhe pertenciam. Os valores, negociados junto ao Fundo do Governo de Singapura, não foram divulgados.

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