Demanda por crédito é fraca

Cautela do consumidor e inadimplência em alta podem minimizar efeitos do pacotão do governo

iG Minas Gerais |

Otimismo. Para concessionárias, somente IPI zero seria melhor do que o pacote de incentivo ao crédito anunciado pelo governo
DANIEL IGLESIAS/O TEMPO
Otimismo. Para concessionárias, somente IPI zero seria melhor do que o pacote de incentivo ao crédito anunciado pelo governo

São Paulo e Brasília. As medidas de incentivo ao crédito anunciadas na quarta-feira pelo Banco Central e pelo Ministério da Fazenda são positivas, mas devem surtir efeito somente no médio prazo, pois o maior entrave ao crescimento do crédito no Brasil não é a oferta, mas a demanda dos consumidores. A avaliação foi feita nesta quinta pelo economista-chefe do Bradesco, Octavio de Barros. São dois os fatos que afetam essa demanda. A desconfiança e o medo do consumidor quanto aos rumos da economia e o alto índice de inadimplência no país.  

“O que trava o crédito à pessoa física é a confiança do consumidor. Não é um problema de oferta, os bancos estão fazendo o dever de casa”, disse o economista. Ele citou o crédito a veículos e disse que a retomada do crescimento nesse segmento dependerá do apetite do consumidor na busca por financiamento. Em sua visão, o que está “comendo” o orçamento das famílias é o maior nível de consumo e não o endividamento excessivo. Segundo Barros, existe maior inadimplência apenas em setores muito desfavorecidos dentro das classes D e E.

De acordo com Barros, o cenário atual de inadimplência foi criado pela maior cautela adotada pelos bancos desde 2011 e também pelo conservadorismo dos consumidores. Uma evidência, segundo ele, é a queda do crédito rotativo do cartão de crédito.

Embora o economista minimize os efeitos da inadimplência, ela é crescente no país. O aumento do endividamento das famílias e o descontrole ao assumir novas dívidas fizeram com que o número de inadimplentes no país batesse recorde em 2014. Até agosto, 57 milhões de pessoas estão com contas em atraso. No mesmo período de 2013, o número estava em 55 milhões e, em 2012, girava na casa dos 52 milhões, segundo levantamento inédito da Serasa Experian divulgado nesta quinta. A instituição aponta ainda outras duas causas para o acréscimo do número de inadimplentes: o parcelamento de compras com juros elevados (como de imóveis e carros) e altas taxas cobradas pelo uso do cheque especial e do rotativo do cartão de crédito.

“As dívidas não bancárias, como carnês de lojas, e aquelas contraídas com bancos foram as principais responsáveis pela alta da inadimplência”, informa Vander Nagata, superintendente de informações sobre consumidores da Serasa Experian. O estudo revela também que 60% dos endividados têm contas atrasadas que superam toda a renda mensal. Outro dado aponta que 53% das pessoas com dívidas possuem até duas contas não pagas no prazo.

Nagata avalia que o nível da inadimplência poderia estar mais elevado, no entanto a evolução da renda e o desemprego baixo atenuam esse cenário.

Principais pontos do pacotão O que muda para o mercado imobiliário: 1) Registro único de imóveis, igual ao Renavam de veículo. Agiliza, reduz riscos e custos na compra da casa própria e concentra informações em um só cartório 2) Incentivo para qualquer tipo de crédito com garantia de imóvel quitado 3) Novo investimento em crédito imobiliário com isenção de IR. Cria a Letra Imobiliária Garantida O que muda para o mercado de veículos: 1) Bancos são obrigado a aumentarem em 20% ou mais financiamentos automotivos, caso contrário o governo não libera o compulsório 2) Cliente autoriza no próprio contrato a retomada do bem financiado e assume multas e tributos não quitados 3) Criação do consignado para trabalhador privado

Proteste alerta Na avaliação da Associação de Consumidores (Proteste), o brasileiro precisa ficar atento, pois a facilidade do crédito pode levar ao descontrole do orçamento Os endividados, que somam mais da metade das famílias brasileiras, terão mais incentivos ao crédito com essas novas medidas e consequentemente um maior risco de se tornarem mais endividados e de perderem seus bens

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave