Viaduto tem falha de execução

Análise aponta que aberturas em laje superior do tabuleiro foram malfeitas e reduziram resistência

iG Minas Gerais | Joana Suarez |

Na imagem, pilar do Batalha dos Guararapes afundado sobre o bloco que se rompeu
Reproducao / Relatorio do Engenh
Na imagem, pilar do Batalha dos Guararapes afundado sobre o bloco que se rompeu

Aberturas excessivas e irregulares no tabuleiro do viaduto Batalha dos Guararapes, na avenida Pedro I, são apontadas como motivos para condenar a alça que ficou de pé. A conclusão é do engenheiro especialista em estruturas Nelson Araújo Lima, que analisou os projetos da obra, assim como as fotos do desabamento e da escavação em torno do pilar que afundou. O especialista carioca, com 50 anos de experiência na área, também acredita que a causa da queda tenha sido a falta de armadura no bloco de sustentação – mesma tese da Cowan, responsável pela obra. O Instituto de Criminalística da Polícia Civil de Minas informa que já está redigindo o laudo oficial, que deve ser entregue nas próximas semanas.

Uma das alças do viaduto caiu em 3 de julho, deixando dois mortos. Em sua análise, o engenheiro explica que o tabuleiro (toda parte da estrutura, fora o pilar) da alça que ficou de pé está fragilizado pelo número de aberturas, por seu posicionamento equivocado e por suas dimensões, maiores que o normal. “Elas deveriam ter sido abertas na parte inferior (do tabuleiro). Da maneira como foram feitas, as janelas reduziram a resistência da estrutura” . Conforme a Consol, o projeto, de sua responsabilidade, previa poucas aberturas, devidamente localizadas e consideradas no cálculo estrutural. “De fato, o excesso de aberturas no tabuleiro está sendo apontado, por especialistas, como causa da ruptura, associada a outros problemas construtivos. Tais aberturas teriam que ser projetadas e aprovadas antes das obras. Como já não estávamos acompanhando a execução, não sabemos como foi a aprovação”, disse o diretor Maurício de Lana. O contrato da Consol para acompanhar a obra venceu em 2013. Causa. Em um primeiro momento, Nelson Lima conta que o tabuleiro foi pensado como a causa do desabamento, mas, ao analisar o projeto e as formas como o pilar afundou e o bloco rompeu, não restam dúvidas que houve erro de cálculo e que faltou mesmo 90% de aço na armadura do bloco. “Quando eles fizeram o bloco de concreto comprido (retângulo), ele passou a funcionar como uma viga e precisaria de mais aço para ser compatível com a base do pilar (quadrada)”. A Consol defende que adotou o conceito de bloco rígido e entregou um relatório às autoridades. A possibilidade de o tabuleiro ter sido mal-executado pela construtora, de acordo com o especialista em estruturas, faz com que a alça ainda de pé seja irrecuperável. “Não basta corrigir a falta de aço no bloco, porque o tabuleiro também está condenado. Se fechar as aberturas, as forças não serão transmitidas porque já estão implantadas pelos cabos”, destacou Lima. Até o fechamento desta edição, a Cowan e a prefeitura não haviam retornado o contato da reportagem.

Saiba mais Especialista. No ramo há 50 anos, Nelson Lima, hoje aposentado, é coautor do livro “Acidentes Estruturais na Construção Civil”. Ele afirma que analisou a queda do viaduto para que o caso fosse estudado pela comunidade acadêmica e “servisse como aprendizado para evitar outros erros”.  Apuração. Lima foi diretor da Divisão de Estruturas da Secretaria Municipal de Obras do Rio de Janeiro por 25 anos, e nesse período atuou na comissão técnica de vistoria, examinando causas de diversos acidentes estruturais. Investigação. Segundo a Polícia Civil de Minas, a área do pilar segue preservada até a entrega do laudo, caso sejam necessárias mais verificações. A investigação está em andamento; mais de 50 pessoas já foram ouvidas. 

Mudança Vizinhos. Vinte e seis famílias que moram nos prédios ao lado do viaduto foram transferidas para um hotel há quase um mês. As despesas estão sendo pagas pela Cowan. Não há previsão de saída. 

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