Reverberações da cena documental contemporânea

iG Minas Gerais | LUCIANA ROMAGNOLLI |

Beatriz França em “Talvez Eu Me Despeça”, que estreia na Funarte
Guto Muniz
Beatriz França em “Talvez Eu Me Despeça”, que estreia na Funarte

A ideia de teatro documentário como uma linguagem privilegiada para quem tem “urgência de comunicar algo” é compartilhada pela atriz Talita Braga. Ela passou a dar oficinas sobre o gênero após a boa acolhida da peça “As Rosas do Jardim de Zula”, no qual divide com o público a história da mãe, que deixou a vida familiar para viver nas ruas.

Desde 2012, “As Rosas...” segue carreira intensa pelos palcos mineiros e afora. Recentemente, chegou das viagens feitas pelo Prêmio Myriam Muniz de circulação. Esteve em Buenos Aires e fez temporada em São Paulo. A próxima apresentação em Belo Horizonte será pelo projeto Diálogos Cênicos, neste semestre. “Eles pediram um espetáculo-aula”, conta Talita, “com momentos de palestra para explicar a construção do trabalho”.

Será só uma ampliação de algo que o espetáculo já traz em sua estrutura. “A abertura do processo é uma característica forte de muitos trabalhos de teatro documentário: a obra inacabada vindo para a cena. Principalmente se for autobiográfica, porque a vida muda e a obra muda”, comenta a atriz.

Traumas. Embora seja notável um conjunto de espetáculos na cena contemporânea que dá tratamento documental a uma experiência traumática – caso do abandono pela mãe em “As Rosas...”; da morte prematura e violenta em “Talvez Eu Me Despeça”; ou de uma relação delicada com o pai, em “Conversas com Meu Pai”, da paulista Janaina Leite (para citar uma montagem recente fora das fronteiras mineiras) – Talita diz que “cada experiência é uma”.

Ela conta que assistiu a “Conversas com Meu Pai” e diz que a solução encontrada por Janaina, diante da impossibilidade de elaborar o que vivenciou com o pai, foi mudar o foco. “É a artista que não dá conta da vida e transforma isso no problema de frente (da obra): a necessidade de falar para buscar uma cura”, diz.

Para Talita, contudo, a história da mãe já estava resolvida ao montar seu espetáculo. O ponto em comum nesse tipo de trabalho, porém, seria o fato de tratar de algo que, mesmo passado, permanece vivo. “Vai chegae um momento em que aquilo não estará mais vivo e perderá o sentido. São espetáculos que têm vida mais curta do que quando se parte da ficção”, acredita.

História. Esse gênero teatral tem uma história mais antiga do que se possa presumir. “Comecei a fazer teatro documentário na USP, em 2002, com o diretor Marcelo Soler, e na época a gente achou que estava criando uma nova modalidade”, recorda a pesquisadora e atriz paulista Elise Vieira, radicada em Belo Horizonte.

“Hoje, a gente vê que o teatro documentário começou a existir na década de 1930, com (o alemão) Piscator. Mas o contemporâneo não é mais necessariamente tão politizado quanto o de Piscator. Não existe mais um tipo de teatro documentário, existem tipos”, diz.

Enquanto artistas como a dramaturga norte-americana Emily Mann escreve a partir de relatos de ex-combatentes de guerra cujo trauma se transforma em violência doméstica, por exemplo, há uma vertente da cena documental mais vinculada à performance, como o coletivo alemão Rimini Protocol.

“O que eu acredito é que, da mesma forma que a ficção se utiliza de realidade, o documentário também se utiliza de elementos ficcionais para poder construir o seu discurso”, diz Elise. O que o define, então, é a soma de três condições: “a intenção do artista em documentar, a consciência dos espectadores de estarem diante de um documentário e o quanto a encenação deixa claro que o discurso é documental”, diz a pesquisadora.

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