Uma tentativa de despedida

Cia. Afeta estreia “Talvez Eu Me Despeça”, obra que une performance e documentário para tratar de um caso real

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Amizade. Beatriz França atua criando uma festa de despedida para a amiga e atriz Cecília Bizzotto, morta durante um assalto em 2012
Guto Muniz
Amizade. Beatriz França atua criando uma festa de despedida para a amiga e atriz Cecília Bizzotto, morta durante um assalto em 2012

Algumas criações colocam em evidência a potência da arte como espaço de liberdade para reelaborar o real, comunicar urgências e propor experiências de que a vida não dá conta. “Talvez Eu Me Despeça”, espetáculo da Cia. Afeta que estreia hoje na Funarte, nasce desse tipo de movimento valendo-se das linguagens da performance e do teatro documentário.

Em outubro de 2012, a atriz mineira Cecília Bizzotto foi assassinada durante um assalto à casa dela. Dias depois, amigos e familiares organizaram um evento na praça Floriano Peixoto para combaterem a dor com afeto. Lá, a diretora Ludmilla Ramalho e a atriz Beatriz França fizeram uma performance usando o mesmo batom vermelho que sempre coloria a boca da amiga para distribuir marcas de beijos.

“A gente não estava dando muito conta da dor”, diz Ludmilla. No dia seguinte, então, ela e Beatriz começaram a gestar a ideia de escrever um espetáculo para transformar artisticamente essa vivência.

O título escolhido para o trabalho entrega a questão principal da dramaturgia: a despedida – negada pela circunstância da morte. “A gente parte do ponto de vista de que para se despedir tem que ter um encontro”, diz a diretora. A forma adotada, então, foi a de um encontro com o público em uma “festa de despedida”, marcada por alguns rituais.

“Desde o início do processo, eu, o Daniel (Toledo, dramaturgo) e a Bia (França) sempre tivemos a preocupação de universalizar a obra, porque é um fato muito pessoal. Eu e Bia estávamos envolvidas de dentro, e o Daniel conhecia a Ciça (apelido de Cecília), mas não tinha o mesmo envolvimento afetivo, o que foi fundamental para o trabalho como dramaturgo”, diz a diretora.

Nesse impulso universalizante, Daniel Toledo trouxe ao processo as palavras do filósofo grego Nikos Kazantzakis (1883-1957) sobre finitude e morte. “Não é só a nossa dor”, comenta Ludmilla. “O espetáculo aborda isso para todos se identificarem com suas perdas. Foi um dos cuidados que tivemos”.

O cenário é uma instalação – criada pela também figurinista Ana Luisa Santos – composta de grandes quantidades de roupas escolhidas por terem história, fruto de doações e pesquisas em brechós. “Nenhuma nova”, diz a diretora. As peças instauram um lugar simbólico daquilo que fica quando o corpo está ausente.

A metáfora se completa pela presença de uma máquina de lavar roupa, apontando também para a realidade prática e a necessidade de seguir a vida, apesar do vazio deixado pela perda.

Linguagens. A performance norteou o projeto desde o princípio, seguindo o desejo de criar um encontro “nesse lugar real do presente”, como diz Ludmilla.

“O teatro contemporâneo chegou a um estado de saturação e acabou perdendo o essencial, que é a troca. Não à toa, a performance hoje é uma das linguagens mais fortes, apesar de pouco difundida ainda. O corpo se torna realmente obra de arte, e minha reflexão, potente, quando trazida para esse lugar do real, do teatro documentário”, diz a diretora, para quem é preciso buscar num “lugar mais profundo e mais real para descobrir de novo quais são nossas urgências”.

O espetáculo foi ganhando outras camadas e ocupando uma fronteira entre linguagens. “É teatro documentário, instalação e artes plásticas também”, diz Ludmilla. “Nós, ocidentais, temos necessidade de catalogar muito as coisas”, comenta a diretora, que prefere trocar a lógica do “ou” pela do “e” – em vez de excluir, somar possibilidades.

O teatro documentário apareceu, então, como resultado do processo criativo, pelo trato com fatos reais e documentos, como cartas escritas por amigos de Ciça, imagens documentais em vídeo e fotografia, e entrevistas com familiares, apresentados como rastros de memória, que aos poucos constituem uma imagem.

Alguns desses itens documentais já aparecem em uma instalação, também criada por Ana Luisa Santos, que se pode ver já na entrada da Funarte.

Agenda

O Quê. “Talvez Eu Me Despeça”, da Cia. Afeta

Quando. De hoje a 31 de agosto. 5ª e 6ª, às 20h; sáb., às 17h e às 20h; e dom., às 19h

Onde. Funarte (rua Januária, 68), (31) 3213-3084

Quanto. R$ 10 (inteira)

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