Por alguns minutos

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A corrida recomeçou. Tenho pressa. Quase todos têm. Pressa em ser, em ter, em ir, em vir, em fazer, em deixar. Querem construir, acontecer, exercer. O relógio não para. Leva. Busca. Trabalha. Reclama. Relaxa. Dorme. Acorda. Malha. Pensa. Escolhe. Age. Às vezes, sorri ou até chora. Comove-se, mas pouco. Não dá tempo. É preciso correr. Seguir o fluxo. Os ponteiros giram. São crianças, jovens, adultos, idosos, homens e mulheres. Aqui ou lá. Juntos. Espalhados. Aflitos à mercê da cidade ou do ritmo frenético imposto pela vida.   Heitor tenta chegar. Vai de carro. Da garagem para a avenida está fácil. Mas é só. O restante do percurso até o trabalho é lento. Anda. Para. Buzina. O horário é de pico. Faz calor. Olha para o lado. Pega o telefone. Entra na internet. Liga o rádio. Ouve as notícias. Muda pra música. Liga o ar. Está estragado. Olha o relógio. Aflição. Tenta de novo. Engata a primeira marcha. Passa a segunda, e, de novo, é só. Ponto morto. Para mais uma vez. Filas. Muitos veículos. Cada um com seu destino. E Heitor no meio do tumulto. É assim até chegar. Não há o que fazer. Congestionamento nosso de cada dia.   Ana vai de ônibus. Embarca muitos pontos depois que o coletivo começa a rodar. Já está lotado. Força a porta pra entrar. Empurra. Segue espremida. Pisão no pé. Está de sandália. Põe a bolsa na frente do corpo. Procura um lugar pra se apoiar. Não encontra. Balança. Não cai. Muita gente serve como encosto. O coletivo segue lento. É o trânsito. Ana prefere o metrô. É mais cheio, mas mais rápido. Só que o trajeto não a atende. Agora, ela está suada e quase na roleta. Cartão na mão. Passa. Batalha pra descer. Alívio. Na calçada, o fim do primeiro aperto do dia. Trabalho. Necessidade. Dinheiro. Prazer. Rogério já está a mil no escritório. Confere a papelada. Digita. Concentra. Refaz. Ensina. Dá ordens. Reunião com a equipe. Argumenta. Escuta. Critica. É criticado. Produz muito, e não é suficiente. Quase nunca é. Dia difícil. O chefe está nervoso. Palavras duras. Ofensas. Necessárias? Não. Mal-estar. Café. Marca a cerveja do fim de tarde com os amigos. Retoma as atividades. Mais papéis. Volta ao computador. Pesquisa. Digita. Preocupa. Olha o relógio. Fim por hoje. Vai ao bar. Bebe. Fala mal de uns, bem de outros. Joga conversa fora. Amenidades. Ouve pouco. Sente-se cansado. Pensa no amor que ficou para trás.   Já é noite. Gabriela buscou as crianças na escola. Já mandou pro banho. Faz o jantar. Chama pra mesa e alimenta os meninos. Também come. Pergunta como foi o dia. Quase não presta atenção nas respostas. Manda adiantarem o dever de casa. Lava a louça. Liga a TV. Não passa nada de bom. Vai de novela mesmo. Fim do capítulo. Pega um livro. Só lê duas páginas. O mais novo chora. Vai ver o que é. Quer carinho. Ela dá. Está exausta. Trabalhou o dia todo. Tenta dormir. Não consegue. Toma um remédio. Apaga. Precisa recomeçar. E de repente um grito. Sou eu. Grito bem alto. É pro Heitor, pra Ana, pro Rogério, pra Gabriela, pra você e até pra mim. Todos precisam ouvir. Que o grito ecoe e nos faça parar. Por alguns minutos que seja. Respiro lentamente. Fecho os olhos. Abro de novo. Enxergo detalhes da vida. Se não olhar bem, belezas passam sem que eu as veja. As pessoas também passam. De longe, parecem cada vez mais distantes. Quero proximidade. Quero empolgação, sorrisos, bons-dias. Quero olhares intensos. Menos reclamação. Menos dor. Mais amor, nem que seja só por alguns minutos. A colunista está de férias. Esta coluna foi publicada em 7.2.2014

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