Em nós estão todas as memórias do universo e do mistério da vida

iG Minas Gerais |

DUKE
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O ser humano é o último a entrar no processo da evolução. Como não existem somente matéria e energia, mas também informação, esta vem estocada em forma de memória em todos nós ao longo de todas as fases do processo cosmogênico. Em nossa memória vibram as últimas reminiscências do big-bang que deu origem ao cosmo. Nos arquivos da memória são guardadas as vibrações oriundas das explosões das grandes estrelas vermelhas, das quais vieram as supernovas e os conglomerados de galáxias e estrelas. Nelas se encontram ressonâncias do calor gerado pela destruição de galáxias, do fogo originário dos planetas ao seu redor, da incandescência da Terra, do fragor dos líquidos que caíram por 100 milhões de anos sobre o nosso planeta até resfriá-lo, da exuberância das florestas e das reminiscências da voracidade dos dinossauros e da agressividade dos nossos ancestrais, além do entusiasmo pelo fogo que ilumina e cozinha, da alegria pelo primeiro símbolo criado e pela primeira palavra pronunciada. Por fim, do êxtase da descoberta do mistério do mundo que todos chamam por mil nomes e nós, por “Deus”. Tudo está em algum canto de nossa psiquê e no código genético de cada célula porque somos tão ancestrais quanto o universo. Nós não vivemos neste universo como seres erráticos. Nós viemos do útero de onde vieram todas as coisas. Somos aquela parte que anda e dança, que pensa, que quer e ama, que se extasia e venera o mistério. Todas essas coisas estiveram virtualmente no universo, se condensaram em nosso sistema solar e só depois irromperam concretas. Porque tudo estava virtualmente lá, pode estar agora aqui. O princípio cosmogênico, vale dizer, aquelas energias que comandam, cheias de propósito, todo o processo evolucionário, obedecem à seguinte lógica exposta por E. Morin: ordem, desordem, interação, nova ordem, nova desordem, novamente interação, e assim sempre. Com essa lógica criam-se mais complexidades. Na mesma proporção vão se criando interioridade e subjetividade até sua expressão lúcida, que é a mente. E vai se gestando a capacidade de reciprocidade. Diferenciação /interioridade/comunhão: eis a trindade cósmica que preside o universo. Tudo vai acontecendo evolutivamente submetido ao não equilíbrio dinâmico (caos) que busca um novo equilíbrio, por meio de adaptações e interdependências. A existência não está fora dessa dinâmica. Tem essas constantes de caos e de cosmo, de não equilíbrio em busca de um novo equilíbrio. Enquanto estivermos vivos, nos encontraremos enredados nessa condição. Quanto mais próximos do equilíbrio total, mais próximos da morte. Como essa estrutura se dá em nós? Antes de mais nada, pelo cotidiano. Cada qual vive o seu cotidiano, que é prosaico e, não raro, carregado de desencanto. A maioria vive restrita ao cotidiano com o anonimato que ele envolve. É o lado da ordem universal que emerge. Mas os seres humanos são habitados pela imaginação. Ela rompe barreiras. A imaginação é fecunda. Imaginamos nova vida, nova casa, novo trabalho. A imaginação produz a crise existencial e o caos na ordem cotidiana. É da sabedoria de cada um articular o cotidiano com o imaginário, o prosaico com o poético e retrabalhar a desordem e a ordem. Se alguém se entrega só ao imaginário, pode estar fazendo uma viagem, voa pelas nuvens e pode acabar numa clínica psiquiátrica. Pode também negar a força sedutora do imaginário, sacralizar o cotidiano e sepultar-se, vivo, dentro dele.

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