Stallone samba na cara dos inimigos

Novo capítulo da série entrega o que os fãs querem com direção menos afiada

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

O Chefe. Produtor, roteirista e astro da série, Stallone deixou a direção do terceiro capítulo para Patrick Hughes
California
O Chefe. Produtor, roteirista e astro da série, Stallone deixou a direção do terceiro capítulo para Patrick Hughes

Na última segunda-feira, a cantora norte-americana Taylor Swift lançou seu novo single. “Shake It Off” é daquelas canções pop grudentas feitas para tocar nas rádios e pistas até ninguém aguentar mais. E Swift sabe disso. No refrão, ela canta “e o som vai tocar, tocar, tocar, tocar, tocar / E as inimigas vão odiar, odiar, odiar, odiar, odiar / E eu só vou rebolar, rebolar, rebolar, rebolar, rebolar”. É algo brilhante da forma mais descerebrada possível. Porque a cantora sabe o que seus fãs querem – e entrega com um comprometimento e uma paixão inegáveis.

Se a idade e as muitas cirurgias, no quadril e no rosto, não tornassem a imagem inviável, poderia-se dizer que é isso que Sylvester Stallone faz na série “Os Mercenários”: rebolar na cara das inimigas e entregar aos fãs o que eles desejam – um retorno à Macho Land pré-politicamente correta dos anos 80, quando ainda era permitido atirar primeiro e perguntar depois.

Comparecer à sessão de “Os Mercenários 3”, que estreia hoje, em busca de qualquer espécie de apuro técnico ou requinte narrativo é a definição de insanidade: repetir a mesma ação, depois de dois longas, e esperar um resultado diferente. O que interessa aos espectadores é explosão, muita porrada e, entre um e outro, diálogos carregados de frases de efeito, como o meme doe Chuck Norris transformado em longa-metragem.

A história é um detalhe muito pequeno. Desta vez, Stallone – que assina o roteiro ao lado de Creighton Rothenberger e Katrin Benedikt (“Invasão à Casa Branca”) – se apoia no velho clichê dos dois antigos parceiros, separados por uma grande traição e reunidos pelo destino para um confronto final.

Numa missão, Barney (Stallone) reencontra Stonebanks (Mel Gibson), que fundou o programa Mercenários ao seu lado, era dado como morto e se tornou traficante de armas. O passado dos dois espelha uma relação Caim e Abel – o que você sabe porque Stonebanks diz isso enquanto vê uma pintura dos dois irmãos bíblicos – e o cenário para a vingança está armado.

O porém é que, dado o perigo representado pelo vilão, Barney decide aposentar sua equipe para protegê-los e recrutar uma nova trupe de jovens mercenários. E o filme gasta muito tempo apresentando uma série de novos personagens, que o público sabe que não vão resolver a história porque não eram famosos quando o Brasil tinha só três Copas do Mundo e, portanto, não podem ser os protagonistas. É um miolo que soa como mera enrolação, que podia ser ocupado com explosões e porrada.

Essa sede pela “fonte da juventude” se reflete em outro problema de “Os Mercenários 3”. Ao contrário do capítulo anterior, Stallone não ocupa a cadeira do diretor, deixando a função para o inexperiente Patrick Hughes (“Busca Sangrenta”). E o novato deixa a desejar no que mais interessa na produção: as cenas de ação.

Em um momento clímax do filme, por exemplo, quando a equipe de Barney está presa em um prédio cheio de explosivos, um dos novos personagens tenta desativar as bombas com um aparelho, enquanto os vilões simplesmente assistem sem tentar impedi-lo. É um tempo morto que permite ao espectador enxergar o absurdo do que está vendo e o tira da montanha-russa que o longa devia ser.

Além de Gibson, as novidades no elenco incluem Antonio Banderas, Wesley Snipes, que só está ali para fazer a piada com sua prisão por sonegação de impostos, e Harrison Ford, que é como convidar seu avô para jogar videogame com você. As atuações se dividem entre as expressões monolíticas de quem diz todas as frases com o “olho do tigre”, como se estivesse sentindo uma dor no joelho (e talvez esteja), à la Stallone e a péssima Ronda Rousey; e aqueles que tentam demais e parecem ser muito bons para a produção, como Gibson e Banderas. No mundo de Taylor Swift, tentar ser Nina Simone soa deslocado demais.

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