A escrita segundo os autores

Encontros do Ofício da Palavra viram livro homônimo, com entrevistas de convidados como Tezza, Hatoum e Galera

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Predomínio masculino. O organizador José Eduardo Gonçalves buscou diversidade de gêneros literários, gerações e origem geográfica
Bianca Aud/divulgação
Predomínio masculino. O organizador José Eduardo Gonçalves buscou diversidade de gêneros literários, gerações e origem geográfica

Para o jornalista e escritor José Eduardo Gonçalves, “cada palavra esconde, em si mesma, uma luta permanente entre sentimentos, percepções e modos de enxergar o mundo”. Transformá-las em texto seria uma tentativa de o ser humano “tomar posse de seu mundo”.

Essa perspectiva reflexiva da escrita permeia as entrevistas reunidas na coletânea “Ofício da Palavra” (Autêntica), que será lançado hoje, às 19h30, no Museu de Artes e Ofícios, na Praça da Estação.

Onze dos quase 70 autores que já se apresentaram no projeto literário homônimo, em sete anos, foram escolhidos por Gonçalves para terem suas falas editadas em papel. “Eu quis fazer uma amostra dessa diversidade que a gente tem na literatura: de gênero, geracional, geográfica”, cita.

Estampam as páginas ideias de Ferreira Gullar, 83 anos, a Daniel Galera e Carola Saavedra, geração que está chegando aos 40, passando pelos ilustres Milton Hatoum e Gonçalo M. Tavares – que amplia a discussão para Portugal.

Nomes prestigiados como Ariano Suassuna e Adélia Prado ficaram para uma próxima edição, que o organizador tenta tornar viável já para 2015.

Ressonância. Outro critério foi a ressonância que os depoimentos ainda têm. “Não vou citar nome, mas um autor que tentei incluir numa primeira leva não deu. A discussão toda tinha ficado em torno de uma coisa só”, conta Gonçalves. “Excluí para valorizar os que fizeram abordagens muito reflexivas sobre o ato da escrita e nos puseram para pensar”.

Entre os depoimentos que revelam essa perenidade, ele cita o de Luiz Ruffato, em 2007. “Tem coerência total com o que ele falou no ano passado na abertura de Feira de Frankfurt. Ele fala da literatura comprometida com a realidade social, o que não altera em nada ter uma narrativa que desconstrói a tradição de romance”, diz.

O trabalho de edição das entrevistas também foi delicado, visto que cada escritor tinha aproximadamente duas horas de conversa gravada, numa estrutura entrecortada de perguntas e respostas, com intervenção da plateia. “Para ser lido, tivemos que limpar o texto”, cota Gonçalves, que dividiu o trabalho com Silvia Rubião. Juntos, organizaram as falas em tópicos.

Entre os temas mais comuns estão as influências criativas, a formação familiar, a relação com a crítica e com o leitor. “Quase todos falam da coisa solitária (de escrever), dessa imersão, ao mesmo tempo em que se nota um desejo profundo de conexão com o leitor, que é um leitor imaginário”, diz ele.

É notável na seleção a pouca representatividade das mulheres, resumidas a Carola Saavedra e a mineira Maria Esther Maciel – convidada a conversar com o público no lançamento. “Pode ser que num segundo volume tenha Marina Colasante, Nelida Piñon, Ana Martins Marques”, diz o organizador. “O universo foi masculino, mas não foi algo definido de antemão”, assegura.

Agenda

O Quê. Lançamento do livro “Ofício da Palavra”

Quando. Hoje, às 19h30

Onde. Museu de Artes e Ofícios (praça da Estação)

Quanto. Entrada franca

Trechos

“Ao entender que não havia a figura do operário urbano na literatura brasileira, eu percebi um espaço onde eu poderia me colocar e contribuir. (...) deveria haver também uma forma literária de executar esse projeto que não fosse convencional ou repetidora de fórmulas”

Luiz Ruffato, 2007

“A verdade é que os poetas não creem nas definições da realidade. (…) É claro que eu não posso viver dentro do espanto, senão eu termino internado”

Ferreira Gullar, 2007

“Lá nos meus tempos de hippie, estava pensando numa maneira de sobreviver fora do sistema. (…) Parti então para Antonina, uma cidadezinha no litoral do Paraná. Lá fiz um curso de relojoeiro por correspondência”

Cristóvão Tezza, 2008

“Eu acho que minha voz literária surge a partir da falta. Talvez não seja só o meu caso, mas de todo escritor. Encontramos a nossa voz – ou o nosso formato – a partir daquilo que nós não temos”

Carola Saavedra, 2011

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