“Cinquenta Anos Esta Noite”, uma reflexão sobre o mundo de Serra

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DUKE
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Li em poucas horas “Cinquenta Anos Esta Noite” (Record), o extraordinário livro de José Serra. Confesso que me surpreendi com a escrita e as aventuras de um jovem de 21 anos na política nacional às portas do golpe de 1964, e suas peripécias e vivências nos anos seguintes. A leitura nos induz a muitas reflexões sobre como éramos e como somos. Lendo os diálogos de Serra com seus companheiros da UNE e da Ação Popular, bem como acompanhando o desfile de personalidades que cruzam a narrativa, vejo com preocupação o futuro político de nossa juventude. Não só desengajada, mas sobretudo desinteressada e despreparada. Porém, não escrevo para criticar a superficialidade de nossa juventude dos tempos do “uhuuu” ou de manifestações contaminadas por vandalismo. Volto a falar do livro de Serra, uma das figuras mais fascinantes da política nacional. Tanto por sua imensa capacidade intelectual quanto por sua capacidade de realizações, além da polêmica que sua figura desperta. Foi considerado, com toda a justiça, um ministro da Saúde de imenso valor, além de ter sido um excepcional ministro do Planejamento nos primórdios do Plano Real. Sua personalidade forte e obsessão por detalhes alimentam o interesse e a polêmica sobre ele. Dizem no mundo político que existem dois tipos de comportamento em relação a José Serra: os que gostam dele e os que o conhecem. Não concordo com os que dizem que seriam raros os que o conhecem e gostam dele. As histórias sobre Serra ligando de madrugada para assessores e jornalistas são folclóricas. Assim como seu mutismo e mau humor quando acorda, geralmente com a manhã já indo para os “finalmentes”. Outros rumores dão conta de que Serra “tratorou” aqueles que discordavam dele. Na aprovação da lei que proibiu a propaganda de cigarros, um par de telefonemas com ameaças claras e diretas eliminou qualquer chance de o Senado embaçar a proposta. Na escolha do candidato do PSDB, em 2002, seu estilo, digamos, bastante assertivo, foi sentido por muitos no partido, em especial por Roseana Sarney no então PFL. São episódios que engordam o vasto folclore sobre o ex-governador paulista. Serra tem obsessão por entender de tudo profundamente. Tal fato causa irritação em uma civilização cuja marca é a superficialidade, a ponto de seus detratores dizerem que ele é um “professor” de Deus. O que importa é que José Serra é um dos políticos mais importantes do país, e sua vivência é importante para compor o mosaico de nossa realidade política. Espero que o livro seja o primeiro de uma série e que ele ainda aborde o governo Montoro, os planos para o governo Tancredo Neves, seus tempos de líder do PSDB na Câmara e no Senado, os bastidores do Plano Real, como derrotou a indústria do tabaco, como reduziu os outdoors na cidade de São Paulo, como fez o melhor programa de tratamento da Aids no mundo, as injunções de suas várias candidaturas, entre outros temas. Apesar da superficialidade do momento atual, nem tudo está perdido. A publicação de uma série de livros recupera nossa história e acende poderosas lanternas nos sótãos de nosso passado político. O livro de José Serra se insere na lista da leitura essencial para se entender o Brasil, assim como a trilogia de Lira Neto sobre Getúlio Vargas e a obra de Rodrigo Lacerda sobre seu avô, Carlos Lacerda, entre alguns outros.

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