O destino e a interferência humana no próprio destino

iG Minas Gerais |

Em recente viagem aos EUA, resolvi reler a trilogia de Sófocles sobre a tragédia edipiana. Lá, um de meus netos acabara de estudá-la, em curso médio de escola pública (!), como meio para o entendimento da problemática que originou o título deste artigo: até que ponto somos vítimas e/ou coautores de nosso destino como seres humanos? Confesso nunca ter passado de uma leitora ávida do teatro grego. Não recebi nenhuma formação sistemática sobre o sentido dramático, mitológico ou seja lá o que for de cada uma das peças. Vou lendo por puro prazer e tirando minhas conclusões – certas ou equivocadas. O fato é que, diante da tragédia que se abateu sobre o candidato Eduardo Campos, voltei a meditar sobre o que havia lido. Que lições tirar? Quem poderia supor o que viria a acontecer com alguém tão novo, tão esperançoso, tão disposto a construir seu próprio futuro?! Teria ele sido predestinado a apenas embaralhar a sucessão presidencial no Brasil, neste ano, decidindo ser candidato e, para isso, rompendo tanto com o PT quanto com seus amigos Lula e Aécio Neves? E o que teria levado a que, no meio do caminho, tivesse um impedimento para que a Rede Sustentabilidade, capitaneada por Marina Silva, não conseguisse registrar-se a tempo como partido? Isso jogou Marina nos braços de Campos, praticamente contra tudo e todos. Sei da perplexidade e da revolta de seus apoiadores quando ela anunciou que todos perguntavam pelo plano A ou B, e nunca pelo que ela acabou escolhendo, o plano C, de se juntar a Eduardo Campos. Destinatária de quase 20 milhões de votos nas eleições de 2010, Marina virou vice de quem mal pontuava nas pesquisas de opinião, um vitorioso político nordestino, com experiência curta no plano nacional (deputado federal e ministro da Ciência e Tecnologia do primeiro governo Lula), mas largamente conhecido em Pernambuco, onde fora secretário de Fazenda de seu avô Miguel Arraes e, depois, conseguira eleger-se duas vezes governador com elevadíssima aprovação. No dia 12 de agosto, Eduardo Campos foi entrevistado duas vezes à noite na emissora de maior audiência no país. Não assisti à sabatina. Só vi trechos dela no dia seguinte. Mas um desses excertos me fez pensar em Édipo Rei e na maldição que pesava sobre ele. No trecho, a entrevistadora insistia com o candidato a presidente sobre a aparente contradição entre “responsabilidade fiscal” e “fim do fator previdenciário”, prometidos por ele. Com um largo sorriso, Eduardo apontou um fato relevante da realidade. Disse ele: “Mas, Renata, a ciência tem permitido que vivamos cada vez mais tempo”... Sou atropelada na manhã seguinte pela notícia da morte dele em desastre aéreo. O entrevistado da véspera não viveria mais um dia... Destino?! Que pretenderia, então, o destino, ao matá-lo aos 49 anos e ao jogar, talvez, agora no colo de Marina Silva o encargo de vir a ser candidata e, quiçá eleita, presidente da República?! Pensei em Sófocles.

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