Droga contra ebola gera debate sobre quem deve recebê-la

Norte-americanos negam ‘favoritismo’, mas ativista africano fala em injustiça

iG Minas Gerais | Andrew Pollack |

Más condições. Controle da doença e estudo são limitados, especialmente em partes da África onde há uma infraestrutura médica limitada
Michael Duff/ap - 9.8.2014
Más condições. Controle da doença e estudo são limitados, especialmente em partes da África onde há uma infraestrutura médica limitada

Nova York, EUA. Com mais de 1.200 africanos mortos desde o início do surto do ebola, há quem considere errado que os suprimentos de uma droga experimental tenham ido para dois norte-americanos.  

Outros se perguntam: e se as primeiras doses da medicação – que nunca tinha sido usada em humanos nem terminou de passar por testes – tivessem sido dadas aos pacientes africanos? “Haveria uma manchete em letras garrafais na primeira página: ‘Africanos são usados como cobaias pela indústria farmacêutica americana’”, disse Salim S. Abdool Karim, diretor do Caprisa, centro de pesquisa da Aids na África do Sul.

A história de controvérsia sobre testes com drogas na África é apenas uma das complexidades enfrentadas pelas autoridades de saúde pública, que se debatem com a possibilidade e a maneira de levar não só esse remédio experimental, como outros, aos países atingidos pelo ebola.

Praticamente não há excedente do chamado “ZMapp”, usado para tratar os norte-americanos. E mesmo daqui a alguns meses, ele pode não chegar a mais de algumas centenas de doses.

Ao menos dois dos países afetados pela epidemia do ebola, Libéria e Nigéria, solicitaram o remédio. Nessa região, a percepção de injustiça na distribuição do medicamento poderia minar a vontade já instável de alguns africanos de confiar nos esforços de ajuda ocidental.

O doutor Armand Sprecher, especialista em saúde pública do grupo Médicos Sem Fronteiras (MSF), disse ter sido uma pena que as primeiras doses tenham ido para os norte-americanos brancos “porque o fato confirma as suspeitas generalizadas”. Mas,ele disse não acreditar que essa percepção possa minar a iniciativa de ajuda, acrescentando que, se houvesse medicamentos eficazes disponíveis, a credibilidade poderia ser reforçada, dando às pessoas um incentivo maior para procurar cuidados médicos.

Melhora. Relatos dão conta de que o ZMapp ajudou os norte-americanos Kent Brantly e Nancy Writebol, que foram inicialmente tratados na Libéria e mais tarde transferidos para o Hospital da Universidade de Emory, em Atlanta, na Geórgia; porém, especialistas disseram que ainda é muito cedo para se confirmar a eficácia da droga.

O ZMapp está sendo desenvolvido pela Mapp Biopharmaceutical, empresa de nove pessoas em San Diego, que fazia estudos em animais e já se preparava para o teste de segurança em humanos no próximo ano – mas os planos estão mudando, agora que é necessário disponibilizar a droga mais rapidamente aos pacientes.

De acordo com funcionários federais, o ZMapp foi dado aos dois norte-americanos porque a Samaritan’s Purse, organização de auxílio que empregava Brantly, soube de sua existência e o solicitou, não por causa de qualquer favoritismo.

Mesmo assim, Maina Kiai, ativista dos direitos humanos no Quênia, disse que a aparente injustiça foi discutida no encontro de líderes africanos, realizado em Washington na semana passada. “Havia aquela sensação de que a vida de um africano vale menos”, disse.

As autoridades federais dizem que, quando o ZMapp estiver disponível em maior quantidade, deverá ser dado a pacientes como parte da pesquisa sobre a segurança e a eficácia da droga.

Fazer um estudo em meio a um surto pode ser difícil, especialmente em partes da África onde há uma infraestrutura médica limitada. Se a epidemia não for rapidamente extinguida, haverá droga suficiente para apenas uma pequena porcentagem de pessoas infectadas.

Sintomas

Alemanha. Uma agência de empregos em Berlim foi fechada ontem após uma suspeita de ebola, depois que uma mulher nascida na Nigéria e que teve contato com infectados sentiu indisposição.

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