O povo não é bobo

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Lá no meio do anos 1980, o grito de quem tinha a esperança de mudar o país era: “O povo não é bobo, fora Rede Globo”. Pronunciar essas duas frases era libertador, porque inaugural. Até então, ninguém nunca havia ousado mencionar o papel da maior TV brasileira na política nacional. Era uma demonstração, depois de anos de ditadura, da nossa consciência política. Era um recado para quem quisesse ouvir. De lá pra cá, muita coisa mudou. Nas últimas manifestações populares, voltou o grito, só que agora ampliado a toda a “grande mídia”, acrescido de violência contra os profissionais da imprensa. Deixou de ser recado para se transformar em combate, no pior sentido do termo. Mas, por mais generalizado que seja esse ódio pela “grande mídia”, a Rede Globo ainda parece alcançar o topo. A emissora carioca, no entanto, historicamente nunca deu satisfações de seus atos a ninguém. Nem mesmo em 1989, quando ficou evidente a “edição” de um debate ocorrido entre presidenciáveis, com os melhores momentos de um contra os piores momentos de outro, o que foi determinante para o resultado daquela eleição. Edição de autoria do jornalista Ronald Carvalho, aliás, assumida por ele, 13 anos depois de ocorrida. O próprio Boni, ex-todo-poderoso que formatou o “Padrão Globo de Qualidade”, revelou que o debate também havia sido manipulado, admitindo que a emissora assumiu um dos lados, daquele, aliás, que depois se sagraria vencedor. A revelação foi feita ao jornalista Geneton Moraes Neto, da Globonews. Agora, às vésperas de uma nova eleição, a Globo tem dado demonstrações de que mudou. Em suas entrevistas com os presidenciáveis no “Jornal Nacional”, tem se esforçado para mostrar que os tempos do jornalismo chapa branca ou de “assumir um lado de uma campanha” acabaram. Dessa forma, bateu em Aécio Neves, bateu em Eduardo Campos, bateu em Dilma Rousseff. Democraticamente. O problema é que as entrevistas pouco ou nada têm servido para o eleitor conhecer melhor os candidatos. William Bonner e Patrícia Poeta, os comandantes do “JN”, não têm a preocupação de serem objetivos em suas perguntas, mas exigem isso do candidato. Com apenas 15 minutos de duração para as entrevistas, não é razoável que se alonguem em perguntas que ultrapassem um minuto. Assim, os âncoras revelam estar mais preocupados em aparecer do que em mostrar os candidatos. Pecado mortal no jornalismo. Nas entrevistas do “JN” com os presidenciáveis, quem parece estar em campanha é William Bonner e Patrícia Poeta.

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