Do céu ao subterrâneo

iG Minas Gerais |

Com a mesma velocidade com que um jato cai e explode, com que uma fatalidade ceifa vidas jovens e com que uma família e um povo se aquebrantam, esvai-se a esperança de que o destino do Brasil seja construído em bases de dignidade e respeito. A tragédia que vitimou Eduardo Campos e outras seis pessoas, inicialmente, alimentou a noção de que se construía ali um marco para a campanha em termos de discurso e estratégia. Pareceu que um pacto por um nível mais elevado emergia da disputa perante aquela desgraça: a certeza da finitude de todos, a dor de numerosas famílias, a admiração de que o pernambucano era credor de A a Z no espectro de partidos e o slogan fatalmente cunhado “Não vamos desistir do Brasil”. Sim, a impressão era que as mortes repentinas colocariam o Brasil na frente dos candidatos e das coligações e o interesse coletivo em prioridade em relação aos individuais. Mas a impressão se desmanchou no ar também muito rapidamente. Uma pena. No glossário da política, “respeito” e “solidariedade” ficam, de fato, nas últimas páginas. Assim como “verdade”. Passado é passado, e baixezas já ecoam por aí. A primeira é a teoria conspiratória de atentado. Da mesma forma com que um inimigo assassinou Getúlio e os militares envenenaram Tancredo, os petistas teriam sabotado o Cessna de Campos, dando-se ao trabalho, inclusive, de comprometer o registro da caixa-preta. As fábulas de Facebook não deveriam sair de lá. Todo brasileiro é treinador de futebol, médico, juiz de direito e cientista político. Somos agora especialistas em acidentes aéreos, com carteirinha do Cenipa, da Anac e tudo mais. Mesmo no domingo, durante o funeral, as vaias a Dilma, logo suprimidas por aplausos, voltaram a denunciar um clima de animosidade contra ela que transborda o respeito. Surge ainda uma disputa surreal pelo legado de Eduardo Campos, como se a herdeira natural não fosse Marina Silva, sua vice que, certamente, será a candidata do PSB. A primeira pesquisa com o nome dela já saiu, e o instituto responsável, ousadamente, assumiu o risco de os números não servirem para nada. A contaminação pela comoção talvez tenham inflado as intenções a favor da ambientalista. É preciso esperar as próximas rodadas para medir com que inteligência e sensibilidade Marina vai trabalhar e honrar a herança do parceiro morto. Campos tem todas as credenciais de um constante fantasma – no bom sentido para uns, no mau para outros. Ou não. Assim como a esperança de um processo mais útil e digno estimulado pela tragédia não deverá passar desta semana, sua imagem talvez desapareça até outubro, levando consigo uma parcela da preferência por Marina. As eleições têm essa capacidade dinâmica de gerar e enterrar denúncias, escândalos, factoides. Lamentavelmente, não obstante o impacto do acidente e a dor da família, dos amigos e dos admiradores, Campos será lembrado como um homem público honrado que teria um futuro brilhante, mas o jogo voltará ao normal na próxima intriga a brotar da lama.

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