Por trás de grandes artistas

“Visões na Coleção Ludwig” traz ao CCBB parte do acervo de um dos principais colecionadores de arte da Europa

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

MAGAZINE - BELO HORIZONTE MG - BRASIL - 18.8.2014 - Centro Cultural Banco do Brasil CCBB comemora um ano com a Exposicao Visoes .
Foto: Douglas Magno / O Tempo
MAGAZINE - BELO HORIZONTE MG - BRASIL - 18.8.2014 - Centro Cultural Banco do Brasil CCBB comemora um ano com a Exposicao Visoes . Foto: Douglas Magno / O Tempo

Arqueólogo, filósofo e historiador da arte, o alemão Peter Ludwig se casou com Irene Monheim em 1951. Juntos, eles dividiam a paixão pelas artes e acumulariam uma coleção que chegaria a mais de 20 mil obras. De início, o acervo do casal se compunha principalmente de azulejos e obras de arte antiga e medieval, mas logo Ludwig se deixaria levar por seu encanto por Picasso e voltaria sua atenção para a arte contemporânea – vindo a ser um dos pioneiros na Europa a reconhecer a pop art norte-americana.

“Ele percebeu que seu papel como colecionador poderia ser muito mais importante e necessário na promoção de jovens artistas do que no acúmulo de arte histórica e consagrada”, afirma Ania Rodriguez. Ela é a coordenadora-geral da exposição “Visões na Coleção Ludwig”, que traduz esse caráter desbravador dos novos caminhos da arte do alemão, revelando o colecionador como um propulsor das transformações e movimentos artísticos de sua época. Depois de passar por São Paulo e Rio de Janeiro, a mostra chega amanhã ao Centro Cultural Banco do Brasil, em Belo Horizonte, onde fica até o dia 20 de outubro.

Viajando com a esposa pelo mundo, Ludwig chegou a adquirir uma nova obra de arte por dia. Seu acervo se encontra hoje distribuído em 12 museus em países como Alemanha, Áustria, China, Hungria e Suíça. As cerca de 70 obras, que vêm ao Brasil pela primeira vez e compõem a exposição na capital mineira, fazem parte da coleção Ludwig do Museu Estatal de São Petersburgo, na Rússia.

Dispostas em oito galerias no CCBB, elas incluem pinturas de Picasso, obras de artistas pop como Andy Warhol e Roy Liechtenstein, além de exemplares do hiper-realismo, do neoexpressionismo alemão e do não-conformismo russo. Segundo Rodriguez, os curadores russos responsáveis pela exposição, Evgenia Petrova e Joseph Kiblitsky, tentaram ressaltar na seleção não só as diferentes etapas e momentos de interesse de Ludwig, mas seu compromisso com a nova arte que surgia em cada país que visitava.

“Ele acreditava que, em um contexto de mudança e efervescência num país, acontecia uma arte muito vital e dinâmica. Então, o que ele queria era buscar entender essa produção pulsante que estava acontecendo no underground”, explica a coordenadora. O começo dessa empreitada pode ser considerada a pop art, que o colecionador adota quando ela ainda era questionado pelo público e a crítica europeia. “Ele cria uma relação com os artistas e promove exposições deles no continente”, conta Rodriguez. Um dos destaques de “Visões na Coleção Ludwig”, que dá a identidade visual da exposição, é um retrato do alemão feito por Andy Warhol.

Essa estratégia de estimular novos caminhos da arte por meio da aquisição de obras de artistas jovens, conferindo a elas força e visibilidade por meio do prestígio de sua coleção, duraria até o final da vida do alemão, em 1996. Nos anos 1980, ele abraça o neoexpressionismo alemão, representado na mostra por nomes como Georg Baselitz, Markus Lüpertz e Anselm Kiefer.

“São artistas que, depois do trauma do nazismo, e a partir de uma linguagem pictórica, resguardam o valor da pintura como ferramenta válida de repensar a nacionalidade alemã”, descreve a coordenadora. Na mesma década, Ludwig descobre o não-conformismo russo, que chega ao CCBB não só em pinturas, mas também em fotografias e vídeos.

“Ele faz um apanhado desses artistas para seu acervo, nesse exercício de criar uma ponte cultural entre a arte ocidental, sua coleção e os novos espaços que visitava, sempre guiado por esse ímpeto do impacto do contexto”, explica Rodriguez. Ela acrescenta que o colecionador fez o mesmo em Cuba, nos anos 1990. “Ele descobre esses novos artistas e, tentando entender o que havia naquele contexto efervescente no país, ele cria uma fundação em Havana e isso tem um efeito dinamizador da cena cultural jovem em Cuba”.

Muitos desses artistas serão desconhecidos do público da exposição – e, segundo a coordenadora, isso não é por acaso. Como deixa claro o nome “Visões na Coleção Ludwig”, o objetivo da mostra é retraçar essa geografia artística que o colecionador mapeia com seu olhar. “Ele constrói esse diálogo entre artistas mais conhecidos e outros descobertos em momentos em que, longe de qualquer preconceito, ele enxerga a arte como valor no trabalho. E essa é uma das lições mais fortes que ficam de sua coleção”, justifica Rodriguez.

 

  • AGENDA
  • Programe-se. “Visões na Coleção Ludwig”

    Quando. de 20/8 a 20/10 – das 9 às 21h (exceto terças-feiras)

    Onde. CCBB – Praça da Liberdade, 450, Funcionários

    Quanto. Entrada franca

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