Corpo de mineira assassinada no Rio é liberado três anos e meio depois

Ela estava enterrada como indigente no Rio por causa de um defeito na geladeira do IML, desde 2011, e só neste mês é que o corpo foi liberado para o traslado

iG Minas Gerais | JULIANA BAETA |

“A saudade é arrumar o quarto do filho que já morreu”. E para o técnico de máquina gráfica Alexandre Jorge da Silva, 48, ela tem sido ainda mais dolorosa do que o exemplo retratado na música Pedaço de mim, do Chico Buarque. Há mais de três anos e meio, Silva luta para trazer os restos mortais de sua filha para Minas Gerais e enterrá-la em Belo Horizonte.

O embate começou em março de 2011, quando a estudante de administração Grazielle Marques Silva, de 20 anos, foi encontrada morta com duas facadas na rodovia Rio-Santos, na cidade de Itaguaí, no Rio de Janeiro. Há mais de três anos e meio, ela permanece enterrada como indigente na cidade de Santa Cruz. A filha de Silva tinha ido para o Rio encontrar o namorado Cleiton Fernandes Côrtes, de 23 anos, também encontrado morto na mesma data, com dois tiros. O caso permanece até hoje sem solução.

Grazielle foi enterrada como indigente porque houve um defeito na geladeira do IML do Rio de Janeiro. Por isso, a jovem foi enterrada quatro dias depois sem identificação. Foi aí que começaram os problemas para liberar o corpo, empreitada que demorou mais de três anos e meio.  

Silva só soube da morte da filha após ir ao Rio de Janeiro e descobrir que o corpo enterrado no cemitério de Santa Cruz era de Grazielle. A partir daí, a família iniciou a saga para trazer o corpo para Minas. Foram feitos exames de DNA e o envio intenso de documentos requeridos para conseguir alterar a certidão de óbito, mas nada adiantou. “O problema foi a burocracia, desde o começo”, contou Silva.

Mas há cerca de duas semanas, o técnico recebeu uma notícia que poderia mudar tudo. O corpo de Grazielle havia sido finalmente liberado para traslado. Dias depois, ele comprou o jazigo no Cemitério da Paz, em Belo Horizonte, para fazer o que queria desde 2011: enterrar a sua filha com dignidade. “O problema é que a gente não tem muita informação, porque o processo corre em sigilo, segundo eles”, disse Silva, se referindo aos responsáveis pelas investigações do assassinato de sua filha no Rio de Janeiro.

“O pessoal dos Direitos Humanos está ajudando a gente com isso. O corpo já era pra ter vindo na semana passada, trazido por uma funerária arranjada por eles, mas parece que houve um atraso e não foi possível realizar o traslado. Mas se isso não ocorrer até esta quarta-feira [20], eu vou procurar uma funerária particular mesmo e vou fazer esse traslado”, promete Silva.

Prejuízo

A morte da filha custou a Alexandre Silva seis viagens ao Rio de Janeiro, para tentar resolver as questões burocráticas que impediam os restos mortais de Grazielle de serem trazidos para Minas Gerais, e um emprego. “Depois de 17 anos trabalhando em uma gráfica, eu fui mandado embora por justa causa, até mesmo por causa dessas viagens ao Rio e o tempo que isso me consumiu. Mas eu nunca faltei uma vez no emprego durante todos estes anos, exceto três vezes por causa dessas viagens. Aí simplesmente o patrão disse que eu tinha que parar de mexer com essas coisas e deixar a polícia resolver”, contou.

Silva foi despedido há cerca de três anos, poucos meses após a morte da filha e decidiu entrar na Justiça, devido as circunstâncias da demissão e o fato de não ter recebido nenhum direito trabalhista, como férias, no tempo em que dedicou à empresa. “Recentemente, consegui reaver esse dinheiro por causa do processo", disse. E foi assim que ele comprou o jazigo no Cemitério da Paz, para enterrar os restos mortais de sua filha. 

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