Fome fome

iG Minas Gerais |

undefined

Vai além da obviedade dizer que a efervescência cultural de Belo Horizonte deriva de um público sempre ávido de boas atrações e que responde calorosamente a elas. Os episódios são incontáveis a ratificar isso e o leitor deve ter alguns na ponta da língua para contar. Dentre alguns casos mais recentes, no show de Moraes Moreira e Davi Moraes, há umas três semanas no Sesc Palladium, mais próximo ao fim da apresentação o público que lotava o teatro entrou no clima da música e formou um trenzinho que passou a percorrer todos os corredores da extensa sala. Depois disso a plateia, predominantemente jovem, não se sentou mais. Dançou o restante da apresentação próxima ao palco. Davi Moraes desceu com sua guitarra sem fio e entrou na festa. Mais ou menos no mesmo período, em um show de Dado Villa-Lobos na casa de shows Granfinos, um distinto bem parecido com o bardo Renato Russo assistia à apresentação quando foi chamado por Dado ao palco para cantar uma das músicas do Legião Urbana. A interpretação agradou e o sósia atendeu ao convite para continuar fazendo as vezes de Renato Russo ali, para frisson da plateia. O público tem feito a diferença também para assistir ao espetáculo “Cássia Eller - O Musical”, que está em cartaz na sala do Centro Cultural Banco do Brasil na praça da Liberdade. A temporada é de quatro semanas em Belo Horizonte (algo que o CCBB trouxe de bom em sua vinda para BH, mais tempo de permanência dos espetáculos ali, incluindo a novidade das segundas-feiras), a venda de ingressos é a cada quarta-feira, e em todas elas grandes filas se formam, com as entradas se esgotando rapidamente. Na última quarta mais de 200 pessoas esperavam no início da manhã a abertura da bilheteria. No caso de Cássia Eller, o alvoroço pode ter duas frentes: as saudades dos fãs em relembrar a cantora de voz poderosa que morreu em 2001 e o burburinho provocado pelos elogios à qualidade do musical e à cantora curitibana Tacy de Campos, que interpreta a homenageada. O espetáculo é mesmo de forte intensidade, muito bem concebido pela equipe coletiva que o produziu e muito bem executado pelos atores em cena, um elenco jovem que dá o ritmo pulsante pedido pelo roteiro. Tacy está com o vigor aflorado como pede a interpretação de Cássia, e outros atores também cantam, ampliando sem fazer feio a paleta de vozes do musical. A história de vida de Cássia desde a adolescente retraída que se trancava no quarto tocando violão, até os seus últimos dias, é entremeada no espetáculo pela execução, com banda no palco, de músicas que marcaram o seu repertório, como “Por Enquanto”, “Malandragem”, “O Segundo Sol”, incluindo outras mais lado B, como a dramática “Non, Je Ne Regrette Rien”, “Noite do Meu Bem”, ela mesma, de Dolores Duran, e a versão Janis Jopliniana para “Mercedes-Benz”. Dizer, aliás, que Cássia foi a nossa Janis Joplin não é exagero nem reducionista para quem conheceu um pouco da vida daquela maluca texana de Port Arthur que parecia cantar repuxando as vísceras e cantava tão bem. Mas Cássia também é Cássia e é ela que emociona centenas de fãs que nem sentem o tempo passar em mais de duas horas de duração do musical. Querem cantar junto e aplaudir Tacy Campos ao fim de cada número mesmo que esteja ainda no meio do espetáculo em que não há excessos, seja na cenografia ou nos quadros do enredo. A carreira, os parceiros, as namoradas, o filho Chicão, a companheira Eugênia; o tom é de um enérgico reencontro com o universo de Cássia Eller, o que inclui também as garras da fera com seu temperamento irrequieto. Ao fim, se deixarem o público ainda quer mais, afinal, ainda há muitas músicas para lembrar.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave