Corpos no meio do caminho

5º Horizontes Urbanos – Mostra Internacional de Dança em Espaço Urbano começa nesta segunda nas rua de Belo Horizonte

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Internacional. O bailarino espanhol Daniel Gómez, de 20 anos, faz o solo “Camino Vertical/ Horizontal”, dirigido por Fernando Lima, e mistura elementos de hip hop e clássico à dança contemporânea
Horizontes Urbanos/Divulgação
Internacional. O bailarino espanhol Daniel Gómez, de 20 anos, faz o solo “Camino Vertical/ Horizontal”, dirigido por Fernando Lima, e mistura elementos de hip hop e clássico à dança contemporânea

Por mais que artistas, a partir dos anos 1960, tenham esgarçado os limites entre arte e vida, e espaços alternativos se multipliquem nas agendas culturais, a arte ainda não ocupou o espaço que poderia no dia a dia das ruas, raramente a romper a narrativa do cotidiano. Com vontade de sacudir esse lugar de (falso) conforto do cidadão em meio à rotina das grandes cidades, o 5º Horizontes Urbanos – Mostra Internacional de Dança em Espaço Urbano programou espetáculos e performances criados com um olhar para a arquitetura das cidades e seus espaços públicos.

São oito atrações nacionais e três internacionais – entre elas, o francês Jérôme Bel –, que se apresentam desta segunda a 21 de agosto em Belo Horizonte. “Em 2003, quando fizemos a primeira edição do ‘1,2 na Dança’, pensamos em trabalhar com espetáculos em Santa Tereza e na avenida Assis Chateaubriand, para circundar a programação da noite, que seria no Teatro Alterosa. E percebemos que a dança ainda era muito frágil nisso. As pessoas queriam estrutura de linóleo e tapete no chão. Isso mudou por dificuldades econômicas e por vários fatores, como a política da ocupação de espaços públicos”, comenta a curadora do evento Jacqueline de Castro, que divide a função com Wagner Tameirão.

De lá para cá, já é possível encontrar mais artistas interessados em criar estabelecendo um diálogo com as condições específicas da rua. Foi nesses que a curadoria mirou. “Buscamos trabalhos de artistas que tenham uma pesquisa com relação ao corpo, à rua, à cena cotidiana e à arquitetura. Não é a mesma coisa de tirar um trabalho do palco e levar para a rua ou que possa estar nos dois”, comenta Jacqueline.

A abertura acontece na Funarte (rua Januária, 68, Floresta), nesta segunda, com uma sequência de quatro apresentações. “Pichent Klunchun and Myself”, às 19h, reúne Jérôme Bel com o tailandês Pichet Klunchun. Eles confrontam seus mundos e experiências durante uma conversa, sentados em um banco, e discutem a nudez, a religião, o medo e a tradição. Ao mesmo tempo, vão demonstrar o que é a dança de cada um, revelando uma alteridade cultural.

Depois, duas obras curtas mineiras: “Dançando, Parando e Comendo”, de Dudude, às 20h30; e “Reação”, de Patrick Vilar, às 20h45. Para fechar, o espanhol “Camino Vertical/Horizontal”, do El Punto Danza Teatro, às 21h.

A intenção em comum entre esses e os demais espetáculos é provocar um olhar sensibilizador para a cidade, que é viva. “Mas, quando a gente se desloca de casa para o trabalho ou escola, dentro do próprio mundo, não observa o outro, não admira”, diz Jacqueline.

Ela se lembra de que, na primeira edição do Horizontes Urbanos, foi feito um trabalho no edifício Sulacap. “Ninguém sabia onde era. A mesma coisa no Tribunal do Justiça, em frente ao Palácio das Artes, um prédio lindo que você passa e não vê. A cidade vai crescendo e engolindo a gente. É muito importante admirar o caminho que você percorre”, diz.

Cortejos, intervenções e apresentações vão colocar no caminho dos transeuntes esses corpos dançantes. Para Jacqueline, é esperado que isso cause estranhamento. Mas a ideia é justamente essa: “Tirar de normalidade”, afirma.

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