Leonilson visceral em SP

Pinacoteca abriga vasto conjunto de obras do artista na mostra “Truth, Fiction”, com curadoria de Adriano Pedrosa

iG Minas Gerais |

Expor. Poucos artistas brasileiros se expuseram tanto através de sua arte como José Leonilson
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Expor. Poucos artistas brasileiros se expuseram tanto através de sua arte como José Leonilson

São Paulo. Ah, e você/Mr. One Night Stand at Toilets on Airplanes, diz o texto bordado em tecido por Leonilson, referindo-se ao encontro sexual com um israelense numa viagem de avião. A obra, uma das 150 expostas na Pinacoteca, em São Paulo, faz parte da seção “Os Diários”, na qual o curador Adriano Pedrosa salienta o caráter biográfico do trabalho do artista. Poucos na história da arte brasileira expuseram-se de modo tão aberto, livre e poético como José Leonilson (1957-1993). Talvez aí esteja um dos elementos que mantenham a obra tão forte e atual. Tendo despontado num cenário que tinha a volta à pintura como questão central, Leonilson deslocou-se desse debate sem graça sobre suporte para criar uma obra vigorosa e ao mesmo tempo frágil – em papel, lona, feltro, voile ou no jornal.

Ele encarnou em sua obra o drama da contaminação pela Aids. A curadoria de Pedrosa reforça o caráter multifacetado e dramático de Leonilson, exibindo as obras criadas em seus últimos anos, que ele considera o período maduro, quando Leonilson já tinha consciência da doença.

Um dos grandes méritos da mostra é expor essa obra contundente sem buscar competir com ela, como ocorreu com “Sob o Peso de Meus Amores”, organizada no Itaú Cultural há três anos, que teve cenografia medonha e seleção bastante discutível, ao mesclar objetos pessoais, obras e descartes de obras. A mostra é limpa e deixa o trabalho de Leonilson falar por si mesmo.

Uma das salas mais impressionantes é a dedicada aos brancos: influência, segundo Pedrosa, do norte-americano Robert Ryman. Ela ganha ares quase tão espiritualizados ou transcendentais como a última instalação de Leonilson, também na mostra, reencenação de um projeto para a Capela do Morumbi, em 1993, que ele não chegou a ver finalizada.

A exposição reúne 94 das 102 ilustrações feitas por Leonilson para a coluna de Barbara Gancia no jornal “Folha de S.Paulo”, entre 1991 e 1993, que se revelou um ótimo diálogo. Para um artista que retirou da vida pessoal elementos essenciais em sua obra, a ilustração no jornal se transformou em poesia.

Biografia. Nascido em Fortaleza, em 1957, Leonilson se mudou para São Paulo ainda pequeno, e logo cedo começou a mostrar o seu interesse pela arte. Passou pela escola Panamericana de Arte e depois ingressou no curso de artes plásticas da Fundação Armando Álvares Penteado, que não concluiu. Na década de 80, fez parte do grupo que revolucionou o meio artístico brasileiro com a retomada do prazer da pintura, conhecido como Geração 80. Participou, em 1985, das Bienais de São Paulo e Paris.

Mas foi nos primeiros anos da década de 90 que ele se firmou como um dos destaques no panorama cultural brasileiro, com uma obra contundente, expressando de modo ímpar os dramas e as angústias do homem contemporâneo. Leonilson foi homenageado com uma sala especial na Bienal de SP de 1998.

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