A inventora de vidas reais

Carolina Kotscho - roteirista e produtora de cinema e TV

iG Minas Gerais | daniel oliveira |

Babel Filmes
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Com “Não Pare na Pista”, cinebiografia de Paulo Coelho, a roteirista Carolina Kotscho fecha uma espécie de “trilogia biográfica”, iniciada com “2 Filhos de Francisco” e “Flores Raras”. Na entrevista abaixo, ela conta como pediu a Coelho para levar sua vida para o cinema, faz uma declaração de amor e explica como o novo filme a reúne com o parceiro de seu primeiro projeto.

“Não Pare na Pista” é um projeto que você desenvolveu. Quando surgiu o interesse pela história do Paulo Coelho e como foi a decisão de transformá-la em um filme?

Foi por acaso, na verdade. Em 2007, eu estava conversando com um amigo, quando o Paulo Coelho ligou para ele e começou a contar que tinha visto o “2 Filhos de Francisco” e ficado muito comovido com o filme. Daí, esse amigo disse: “‘peraí’, então, que eu vou te passar pra pessoa certa para você conversar”. E me passou o telefone. Esse amigo tinha feito um documentário sobre o Paulo, e eu sabia que era uma história muito boa. Daí, quando ele me disse que tinha gostado do “2 Filhos”, eu falei “então, deixa eu contar a sua história”. Começou ali, e foram dois anos para convencer o Paulo. Depois de “2 Filhos de Francisco” e “Flores Raras”, esta é a sua terceira cinebiografia como roteirista. De onde vem a curiosidade e afinidade por esse tipo de história?

Eu comecei trabalhando com documentário. E o processo de pesquisa sempre me fascinou muito. Tenho pai jornalista e mãe socióloga, então cresci gostando de entender um pouco mais as pessoas. E aconteceu de boas histórias baseadas em personagens reais chegarem na minha mão. Trabalhando com ficção, não vejo diferença entre um roteiro original e um baseado em uma história real. O trabalho é o mesmo: contar uma vida inteira em duas horas é sempre um exercício de ficção. E como foi a decisão de se tornar roteirista?

Venho das artes plásticas, na verdade, e comecei a trabalhar com cinema no primeiro ano da faculdade. Sempre escrevi e, juntando minha história de família com minha formação, encontrei no cinema uma síntese, que é contar histórias por imagens. O primeiro projeto que eu fiz se chamava “Programa Zero”, uma animação para jovens. Apresentei para o GNT, que achou de uma cara de pau imensa, mas adorou o projeto. Acabou virando um programa do Multishow, em parceria com o Daniel Augusto, que hoje é o diretor do “Não Pare na Pista” – nos reencontramos depois de 15 anos. O que chama mais a atenção no roteiro do “Não Pare na Pista” é a decisão de ir e voltar no tempo entre os três momentos da vida do Paulo em que você decidiu focar. Me fala um pouco dessa escolha.

A melhor definição para essa estrutura veio de uma pessoa muito simples em uma pesquisa de público do filme. Ela disse “é como se ele estivesse contando a história dele pra gente”. Porque quando contamos nossa vida, fazemos assim: uma coisa lembra da outra que lembra a outra – quais as consequências de cada um desses eventos que vão formando essa pessoa, esse personagem. Fiquei muito emocionada quando ouvi isso porque o Paulo é isso: vive de contar a própria história. O filme também transpõe para a tela um pouco do universo místico e fantástico da literatura do Paulo. Como foi traduzir isso para o cinema e integrar à história do protagonista?

O que achei muito interessante nas conversas com o Paulo, e tentei traduzir na tela, é que essa é a história de um homem comum. Ele vê um seriado na TV e interpreta aquilo como um sinal. Algo que pode mudar a vida dele. Não é uma luz que se acende no céu. Não tem ali um misticismo que vem da fantasia, ou de algo que só acontece com o Paulo. É o caminho do homem comum – ou do Paulo como um homem comum (risos). Uma pessoa obstinada que chegou muito longe percorrendo esse caminho que quis percorrer. Qual foi o maior desafio que você encarou no roteiro do “Não Pare na Pista”?

Contar essa história toda em duas horas. A vida do Paulo dava uns dez filmes. Ou dez novelas de 200 capítulos. Cada um dos eventos do filme rende muita história. A relação dele com o Raul Seixas, com o pai, com as mulheres, com a literatura. O maior desafio de fazer um roteiro é justamente fazer escolhas – o que deixar de fora para construir um arco dramático que faça sentido no tempo de um filme. A primeira decisão, que é sempre a mais difícil, é qual o centro de gravidade dessa narrativa. No caso do “Não Pare”, é a história daquele menino que quer ser escritor e não desiste. A partir do momento que se escolhe isso, todas as cenas têm que trabalhar a favor dessa história, e tudo flui com mais leveza. O “Não Pare” é também seu primeiro projeto como produtora. Me fala dessa novidade e o que ela trouxe de diferente para você em relação aos seus trabalhos anteriores.

Tenho essa esquizofrenia há mais tempo. Na primeira produtora onde trabalhei com documentário, também mexia com uma parte mais executiva. Era uma empresa pequenininha, e tinha que fazer e entender de tudo: lei de incentivo, captar dinheiro. Depois, fui para a Conspiração também num cargo executivo, na área de entretenimento em São Paulo. Foi ali que encontrei com o Zezé (Di Camargo) e o Luciano, e me encantei pela história deles. Comecei a escrever e eles me diziam ‘Carol, isso não é assim. Roteiro é uma coisa muito séria, não posso assumir um compromisso com você’. Daí, o Breno (Silveira, diretor do filme) leu, gostou, e acabou acontecendo o que aconteceu. Fala-se muito do boom na TV paga brasileira atualmente. Você acredita que esse é um bom momento para roteiristas?

Acho que é o começo de um novo momento, e se vê de tudo. É quase como uma bolha, uma demanda enorme de uma hora para outra. O mercado estava despreparado para isso. Tem muita gente trabalhando, tendo que entregar muito rápido, ganhando muito pouco. E a qualidade que se vê não é o que a gente espera. Mas sinto, sim, que isso está forçando uma formação e uma evolução de melhores profissionais para que, em pouco tempo, se possa ter uma surpresa muito positiva, um salto de qualidade. Qual o erro mais comum que você vê nos roteiros brasileiros, seja no cinema ou na TV?

Participei de alguns júris e li muitos roteiros nos últimos anos. Fui consultora da Ancine, do BNDES. E os scripts são ainda muito verborrágicos. Tem uma frase quase de autoajuda de livro de roteiro: “o personagem não é o que ele fala, é o que ele faz”. Vale para a vida também: a gente não é o que diz, é o que faz. É algo que os roteiristas têm que levar mais a sério. Vejo muito personagem se explicando de maneira expositiva, pouco cinematográfica e pouco dramática. Quais são seus roteiros, ou roteiristas, favoritos?

O roteirista favorito é meu marido Braulio Mantovani, em todos os sentidos. Não preciso ir muito longe. Além de ser o pai dos meus filhos, é uma pessoa brilhante, com quem a troca tem sido muito rica nesses anos todos que a gente está junto. E que conta história com imagens e ações muito mais do que palavras. E um roteiro que eu gostaria de ter escrito é “Juno”. Uma história que sai do nada e chega tão longe. Uma adolescente que engravida, e você não dá nada. É um filme brilhante, não é à toa que ganhou o Oscar. Acho que o maior desafio não é a história que se vai contar, mas como. E o como ali é brilhante. E quais são seus próximos projetos?

“O Código da Vida”, um filme baseado no livro homônimo do Saulo Ramos. É um roteiro que estou desenvolvendo com o Braulio. Fizemos “A Teia” este ano para a Globo, mas esse é o primeiro roteiro para cinema que escrevemos juntos. Vai ser dirigido pelo Daniel Augusto, do “Não Pare”, e estrelado pelo Ângelo Antônio, um monstro, que fiquei muito feliz de ter gostado da ideia. E tenho contrato com a Globo até 2016. 

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