Escola de Espectadores tem lista de espera

A Escola de Espectadores também já existe em outras cidades da Argentina, no Uruguai, México, Chile e até em Porto Alegre (onde foi fundada em 2013)

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

‘Spam’, de Rafael Spregelburd, diretor expoente da Argentina
Anelize Tozzeto/Festival de Curitiba
‘Spam’, de Rafael Spregelburd, diretor expoente da Argentina

Esta é a segunda vez que o pesquisador argentino Jorge Dubatti vem a Belo Horizonte – a primeira foi por ocasião de um FIT-BH. “Vi muitos bons espetáculos latino-americanos”, recorda. Mas é sobre a produção de sua cidade de origem que sua atenção recai. “Buenos Aires é uma capital de teatro que dá gosto”, diz, citando mestres entre os artistas portenhos, como Maurício Kartum, Rafael Spregelburd e Ricardo Bartís, Eduardo Pavlovsky, que os brasileiros “precisam conhecer”.  

Dubatti conta que, em 2013, estrearam 1.800 espetáculos somente na cidade de Buenos Aires – dos quais ele conseguiu ver 200. E a Escola de Espectadores, criada por ele na capital argentina há 14 anos, já conta com 340 alunos – além de uma lista de espera de mais centenas.

Os encontros da escola acontecem todas as segundas-feiras, como um espaço para se ampliar a visão do espectador e torná-lo mais apto a fruir as obras além do senso comum e de seus preconceitos. O ideal de espectador, para Dubatti, é o “companheiro”, aquele que se permite ver o processo de trabalho do artista e descobrir com ele.

Para isso, a cada encontro, Dubatti dá uma aula de história do teatro, comenta técnicas e outras informações que ajudem o espectador a reconhecer o que se passa em cena, e convida artistas a explicarem os porquês de suas escolhas, de modo que o público possa entender suas proposições.

A Escola de Espectadores também já existe em outras cidades da Argentina, no Uruguai, México, Chile e até em Porto Alegre (onde foi fundada em 2013). Outros Estados brasileiros já manifestaram interesse em abrir uma filial – e Belo Horizonte chegou a ter uma experiência em 2011, durante o Festival Internacional das Artes – Festia, coordenado por Richard Santana e Ana Luísa Freire.

Em cada localidade, porém, o funcionamento da escola é diferente, de acordo com os hábitos do público e a realidade teatral específica. “Nós temos que falar dos teatros que conhecemos”, opina Dubatti.

Sob esse viés, o portenho contou, em outras ocasiões, uma anedota sugestiva sobre a vez em que encontrou em Porto Alegre o teórico alemão Hans-Thies Lehmann, criador do conceito de “teatro pós-dramático”, amplamente difundido no Brasil, e comentou com ele que não conseguia ver o pós-dramático na cena portenha. Lehmann teria lhe respondido, espirituosamente, que nunca foi sua intenção escrever sobre Buenos Aires.

Dubatti defende que cada um pense o teatro ao seu alcance. Os pesquisadores, segundo ele, deveriam então se voltar aos espetáculos feitos em suas cidades, não à análise da nova montagem de Bob Wilson. E levar em conta não um ideal de teatro, mas o que realmente acontece em convívio. 

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