Por um resgate do convívio

O crítico, pesquisador e professor argentino Jorge Dubatti veio a Belo Horizonte para falar da sua Filosofia do Teatro

iG Minas Gerais | Luciana Romagnolli |

Vizinho. Na foto, em debate no Festival Internacional de Teatro de Buenos Aires, Dubatti é teórico dos mais ativos na América Latina
Adan Jones
Vizinho. Na foto, em debate no Festival Internacional de Teatro de Buenos Aires, Dubatti é teórico dos mais ativos na América Latina

O pensamento contemporâneo sobre teatro se baseia grandemente em reflexões de pesquisadores da França, da Alemanha ou dos Estados Unidos. Até porque há mais de cinco séculos tornou-se costume olhar para esses países em busca de referências de ponta em qualquer arte – ou ciência. Mas é possível encontrar na América Latina gente que está pensando o teatro com igual sagacidade – a partir de uma realidade mais próxima.  

Referência latino-americana nos estudos teatrais, o ensaísta e crítico argentino Jorge Dubatti é um desses nomes. Ele esteve em Belo Horizonte na quarta-feira (13) para dar uma aula inaugural na Escola de Belas Artes da UFMG e apresentou parte de sua pesquisa mais importante: uma Filosofia do Teatro, compilada em três volumes ainda inéditos no país. Dubatti é também o criador da Escola de Espectadores, que mantém há 14 anos na capital argentina.

Um dos pontos mais interessantes da Filosofia do Teatro é a argumentação que devolve à arte teatral um lugar de protagonismo no contexto social contemporâneo, mesmo em meio a tantas artes e formas de entretenimento calcadas na tecnologia – e contra qualquer ideia de que o teatro estaria superado.

Segundo ele, nos últimos 20 anos, a teatralidade foi “usurpada” pela política e por outros acontecimentos sociais. “Tudo” é teatro. Assim, para redefinir sua importância, o teatro volta a olhar para o que lhe é próprio: o convívio. Isto é: a presença física de atores e espectadores no mesmo espaço e ao mesmo tempo, compartilhando uma experiência.

“O convívio é uma manifestação ancestral da cultura viva e diferencia o teatro de outras linguagens: do cinema, da TV, rádio, skype, chat”, diz Dubatti, que o compara aos banquetes e simpósios da antiguidade grega. “Ir perdendo a cultura do convívio é perder um dos tesouros mais incalculáveis da humanidade”, diz Dubatti. E completa: “Cada tecnologia determina mudanças nas condições de se viver junto”.

O teatro, assim, seria responsável por religar o espectador à experiência ancestral do homem. “Para que haja convívio”, diz o pesquisador, não pode haver “intermediação tecnológica que subtraia a presença”. Uma peça de teatro, então, pode ter projeções de vídeo, por exemplo, desde que o convívio permaneça.

Dubatti ilustra essa ideia contando sobre uma vez em que assistia a um filme de Maggie Smith enquanto viajava de avião, e começou uma forte turbulência que impactou a todos – menos à atriz. “Naquele momento, Maggie devia estar tomando chá em Londres”, brinca. Isso é o que o autor chama de “tecnovívio”, quando a presença do corpo em carne e osso é substituída pela intermediação tecnológica. “No cinema, o corpo do ator e o corpo do espectador não participam da mesma experiência”, observa.

Dubatti valoriza, no teatro, a criação de uma zona de afetação mútua entre atores, espectadores e técnicos. Já o cinema, segundo ele, “rompe o vínculo ancestral de convívio”, de modo que a experiência do espectador passa a ser organizada por empresas e pela publicidade, que criam as mediações (como Facebook ou Skype), determinando as condições dessa experiência.

Segundo ele, a teatralidade é um atributo humano. “É a capacidade de organizar o olhar do outro fazendo algo. Está no bebê, no poder cívico, nos amantes, no vendedor, é muito anterior ao teatro”, comenta, dizendo que “os maiores atores contemporâneos são os políticos, jornalistas e pastores”.

Dubatti conta ainda que há, na rua Corrientes, no centro de Buenos Aires, uma filial da Igreja Universal em que os pastores “fingem ser brasileiros, falando um portunhol, os testemunhos são roteirizados e o exorcismo é feito em tempo de televisão”.

“Entender o teatro é entender toda a rede de olhares na qual hoje se sustenta o poder e o mercado”, resume.

Trilogia

As principais ideias de Jorge Dubatti estão expostas em três volumes de livros ainda não publicados no Brasil, são:

“Filosofia del Teatro I” (Buenos Aires, Atuel, 2007); “Filosofia del Teatro II” (Buenos Aires, Atuel, 2010);e “Filosofia del Teatro III” (Buenos Aires, Atuel, 2014).

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave