A simples arte de matar... a literatura - Monteiro Lobato

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Literatura politicamente correta é um engano, um engodo, uma farsa e um desserviço a qualquer leitor de qualquer idade
Intervenção sobre foto de Monteiro Lobato
Literatura politicamente correta é um engano, um engodo, uma farsa e um desserviço a qualquer leitor de qualquer idade

R’eza a lenda que certo dia, mergulhado em faturas, originais e provas até o pescoço, Monteiro Lobato mostrava-se mais irritado do que o normal. Bateram à porta e só podia ser a secretária. Ele gritou: – Entre! A mocinha, loura, bonita e rechonchuda, entrou timidamente e, sempre temerosa de enfrentar o homem, disse baixinho: – Doutor Lobato, tem um crioulo na recepção querendo falar com o senhor. Não quis dizer o nome nem o assunto. Tem um embrulho grande nas mãos. – Como é ele? – Pra crioulo, doutor, até que está bem vestido e fala direitinho. – Diga que entre! UM SIMPLÓRIO Entrou o negro. Nem alto nem baixo, por volta dos 40 anos, bem apessoado e bem cuidado. Trazia um pacote grande, embrulhado em papel pardo. – Sente-se – disse Lobato erguendo as sobrancelhas. – A que devo a honra? – Sei que é um homem muito ocupado, doutor Lobato, mas me atrevi a importuná-lo, pelo que peço desculpas. – Vá em frente, criatura – resmungou o impaciente editor e escritor, que àquela altura já era reconhecido no país inteiro. – Fale sem susto. – É que eu escrevi um romance e queria mostrá-lo ao senhor. UM BAITA SUSTO Lobato tirou o charuto da boca – eu não disse que ele estava fumando, disse? –, franziu as sobrancelhas espessas, encarou fixamente o negro, e então falou: – Ótimo. Está aprovado. O visitante quase caiu da cadeira. – Mas, doutor, eu nem abri o pacote! – Não precisa. Está aprovado. Pode deixar comigo. – Desculpe, doutor, mas o senhor está brincando, não está? Não viu meu livro, não sabe se é bom, e me diz que está aprovado? Como assim? TROCANDO EM MIÚDOS Lobato devolveu o charuto à boca, tirou uma baforada, soltou para cima a densa fumaça, descansou o charuto num cinzeiro de porcelana e cruzou os dedos. De olhos semicerrados olhou o pacote e depois encarou o negro. – Nem sei ainda seu nome, meu caro, mas isso não tem importância. A única coisa importante é que você escreveu um romance. No catálogo da editora não temos sequer um crioulo. Só branco. E eu preciso de um crioulo no catálogo, entendeu? – Entendi, doutor, entendi muito bem. Mas nem abri o pacote, o senhor não me conhece, não fui recomendado por ninguém, e o senhor me diz que o livro está aprovado sem ao menos dar uma olhada? – É tudo verdade, mas não tem importância. Deixe aí o pacote, seu nome e os dados para o contrato, incluindo endereço e telefone, se tiver. – Quer dizer que meu romance vai ser publicado pelo senhor? – Vai. Sairá dentro de seis meses, no máximo. – Maravilhoso! Mas só por curiosidade, doutor. E se o livro não prestar? – Se não prestar, eu reescrevo. Não será a primeira vez.’ LOBATO E O FOLCLORE Essa história pode ser lenda, mas não parece. Tem tudo a ver com Monteiro Lobato. Como a polêmica envolvendo a pintura de Anita Malfatti, que escrachou, antes de tudo por ser ela, desconfiava, “produto de importação”. O que engrandeceu Lobato não foi sua literatura adulta, mas sua intuição, sua coragem e seu papel como “inventor” da literatura infantil, do marketing livresco no Brasil e de várias e retumbantes polêmicas. Se hoje a Petrobras orgulha o país, cabe a Lobato grande fatia nas pesquisas e na descoberta dos primeiros poços. POLITICAMENTE INCORRETO O melhor de Monteiro Lobato foi sua profunda crença no país e nas crianças. Não nos adultos, dos quais desconfiava, só nas crianças. Para elas, publicou uma série deliciosa de grandes livros com personagens inesquecíveis. Nos últimos anos, uma polêmica absolutamente idiota envolveu seu nome, suas criaturas e sua falta de respeito aos padrões da norma culta. Professores, educadores e guardiães da moralidade pública decidiram que Lobato não serve para crianças. Meu Deus do céu! Se ele não serve, quem servirá? A hipocrisia não tem limites. Entre pensar e agir – como Lobato fazia – a esmagadora maioria prefere se deixar levar pelas regras do bom comportamento ético e moral. E falta, é claro, coragem. MAIS CLAREZA A colunista Silvana Mascagna escreveu neste caderno em 06/08: “O conflito em Gaza já matou cerca de 2.000 pessoas em menos de um mês. Se a guerra perdurar e a média se mantiver, em um ano serão 24 mil mortes. Aqui, no país abençoado por Deus e bonito por natureza, ‘onde não há guerra’, são 56 mil vidas que se vão anualmente. A maioria jovem, 70% negros. Quem se importa? Mais fácil chorar pelos mortos, órfãos e mutilados distantes do que pelo vizinho da favela, colado à nossa casa.” O racismo anda pela mesma trilha sinuosa, e seu combate também. Briga-se por picuinhas, que não levam a nada. Chamar de crioulo, não pode. Mas fechar os olhos para a violência contra o negro, que é culpa da toda a sociedade, ah, isso pode. No tempo de Lobato não havia a clareza ética que existe hoje. Mas será que hoje existe menos racismo do que nos tempos de Lobato?

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