O pretinho básico

iG Minas Gerais |

Perdoem-me, leitores pelo trocadilho que faço com título desta coluna, pois ao invés de escrever sobre os famosos vestidos pretos advogados por Chanel, estarei me reportando aos vestidos de luto. Poderão comprovar o quão estou correta quem estiver em Nova York em outubro de 2014, por meio da exposição do Metropolitan Museum de Nova York: “Death Becomes Her – A Century of Mourning Attire”. Conheci uma senhorinha que detestava o preto. Não tinha uma só roupa dessa cor. Quando perguntei o porquê, ouvi a seguinte resposta: muita dor, muita dor. A cor preta não era utilizada apenas para o luto, mas era obrigatória no luto. Após a morte do príncipe Albert, da Inglaterra em 1861, a Rainha Vitória usou o preto por quarenta anos, acirrando a obrigatoriedade da cor nas diversas ocasiões de morte de familiares. Em uma época em que a medicina avançava lentamente, sem antibióticos e tecnologias de cura, uma gripe matava. Uma queda de cavalo e uma fratura exposta matava. A mortalidade infantil era enorme. Famílias de dez filhos, por vezes, viam apenas um chegar à idade adulta.  Surtos como a Gripe Espanhola deixaram centenas de milhares de mortos. Por aí já se pode imaginar o uso do luto. E agora, acredito, que tenham compreendido o meu título ‘pretinho básico’. Se um guarda-roupa feminino fosse ocupado por dois vestidos, um certamente seria preto. Daí veio o comentário da senhorinha que conheci, pois ela usou o preto continuamente pelas mortes seguidas dos irmãos e da mãe. As mulheres, vitrines da situação familiar desde o século XIX até meados do século XX, carregavam o peso do preto por mais tempo. No caso da morte do marido, pelo menos doze meses da aparência desolada coberta pelo negro total, de um tecido de crepe fosco. Após esse período, entrava em cena um tecido mais leve, a dita ‘seda de viúva’, que deveria ser usada por mais seis meses. Logo depois, a escuridão se anuviava, sendo permitido a combinação do preto com tons de cinza, lilás e violeta.  Após a Grande Exibição de 1851 em Londres, o azeviche (carvão fóssil), tornou-se conhecido e usado em peças de bijuterias. Posteriormente, a viúva Rainha Vitória adotou peças desse material como adorno No século XIX, antes do advento dos grandes costureiros como Charles Worth, era a aristocracia que definia as regras do que era fashion. E o azeviche se espalhou da Inglaterra para o continente europeu por meio de brincos, colares, broches, como o enfeite das viúvas. O Museo del Traje, em Madrid, possui belos exemplares dessas peças. No Rio de Janeiro insalubre, infestado de febre amarela, não era raro ver a morte chegar rapidamente. Um comércio especializado existia preparado para a ocasião, como anunciou em 1875 uma loja especializada na Rua da Quintanda: “esta casa recebe diretamente por todos os paquetes os artigos de que necessita a sua especialidade, e por esta razão qualquer Senhora encontrará nela tudo o que desejar para luto e por preços bem razoáveis (...)”. Mas desde que a moda se implanta, até momentos trágicos podem ter um toque de bom gosto – ou talvez – exibicionismo. Terminemos com mais um trecho do anúncio de 1875, que enumera seu vasto estoque: “chapéus de escomilha, toucados redondos, véus e toucas para viúvas e um imenso sortimento de vidrilhos pretos. (...) colarinhos e punhos, camisinhas e laços de fumos, ruches e crespos, leques pretos, livros de missa, casas, percales, musselinas e chitas. Ah, e sem esquecer a linha final: “Preços baratíssimos”.   Mariana de Faria Tavares Rodrigues é mestre em moda, pesquisadora de história da moda, e docente no Centro Universitário UNA. Ela divide este espaço com Lobo Pasolini, Ludmila Azevedo, Jack Bianchi e Tereza Cristina Horn

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