Cronstrução na boca alheia

Autores de novelas mostram suas verdadeiras posturas e impressões a partir da criação de seus personagens

iG Minas Gerais | geraldo bessa |

Afonso Carlos/Czn
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Autores de novela recorrem a muitas fontes de inspiração e referências para construir personagens e desenvolver tramas. As vivências dos criadores, inclusive, são a base para muitas das ações de suas criaturas. Seja por vaidade ou simplesmente para manter uma marca registrada, novelistas sempre se utilizam de um personagem ou outro para expressar suas ideias e visões de mundo dentro da novela. Autor de “Império”, Aguinaldo Silva é mestre em criar tipos que funcionam como seu alter ego dentro da trama. Em “Senhora do Destino”, cabia a Giovanni Improtta, de José Wilker, ser a voz do autor dentro da novela. Já em “Duas Caras”, foi a vez da personagem Gioconda, de Marília Pêra, dar vazão aos pensamentos do novelista. Na atual novela das nove, Aguinaldo inseriu, inclusive, um personagem inspirado em sua própria história de vida, o Vicente, chefe de cozinha de origem nordestina que tenta a carreira no Rio de Janeiro, interpretado por Rafael Cardoso. “Esse personagem tem muito de mim. Vim do Nordeste para o Rio com 16 anos e fiz a minha vida aos trancos e barrancos. Acho até que fiz bem, pois consegui chegar em lugares que nunca imaginei que chegaria”, valoriza Aguinaldo.

Alguns autores ficam tão fissurados por suas representações dentro da produção que acabam monopolizando as falas desses personagens. Contratada da Record, Margareth Boury chegou a combinar com seus colaboradores que só ela escreveria para Roberta, papel de Lua Blanco em “Rebelde”. “Não sei se escolhi ou fui escolhida pela personagem. Mas eu me sentia bem em escrever as cenas dela com a mãe e com os amigos. Colocava experiências e impressões muito minhas nos diálogos. Meus colaboradores nem chegavam perto”, conta a autora. Essa aproximação com certos tipos são comuns no trabalho de novelistas mais tradicionais, como Manoel Carlos, que, entre outros personagens, assume que Miguel, papel de Tony Ramos em “Laços de Família”, e Tide, o patriarca defendido por Tarcísio Meira em “Páginas da Vida”, eram reflexos de seu modo de viver e encarar as adversidades.

Nem sempre um ou dois personagens são o suficiente para carregar as opiniões de seus donos. A grande maioria dos autores, apegados a vários papéis durante a criação da trama, acabam por pincelar ideias e experiências em muitos tipos ao longo da história. Escritor de folhetins clássicos ao lado de Aguinaldo Silva e Gilberto Braga, Ricardo Linhares acredita que distribuir suas opiniões pelos personagens é parte das tentativas do autor de humanizar e justificar maldades ou bondades de suas crias. “Todo mundo tem defeitos e qualidades. Acho fundamental ter carinho pelas criações, para não julgá-las e fazer o público compreender suas motivações”, destaca.

A novíssima geração de autores da Globo faz coro com Linhares. Autor de “Sangue Bom”, escrita a quatro mãos com Maria Adelaide Amaral, Vincent Villari assume que encaixou boa parte de seus dilemas, receios e opiniões em cerca de 30 personagens. Dos mais importantes aos secundários. “A vida do autor serve de obra-prima para os acontecimentos da novela. Dependendo do momento do personagem na trama, ele vai beber dessa fonte”, explica. Já Rui Vilhena, autor da atual novela das sete, além de se inspirar em suas vivências, aproveita seus personagens para ter outras experiências e escancarar suas reais posturas a cada situação. “Sou muito inquieto. Utilizo a trajetória de cada personagem para mostrar também o que eu faria. É muito bom poder, por um breve período de tempo, viver outras vidas. É divertido e meio terapêutico”, analisa Vilhena.

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