Bairros no entorno do complexo são tomados por barracões

Problema que antes se concentrava debaixo dos viadutos agora chega a calçadas e praças

iG Minas Gerais | ALINE DINIZ |

Ampliação. Frequentadores dizem que barracos começaram a se multiplicar nos últimos dois meses
JOAO GODINHO / O TEMPO
Ampliação. Frequentadores dizem que barracos começaram a se multiplicar nos últimos dois meses

As entradas dos bairros no entorno do Complexo da Lagoinha, na região Noroeste de Belo Horizonte, estão sendo tomadas por barracos de moradores de rua feitos de pano, lona, madeira e papelão. O problema, que antes se concentrava debaixo dos viadutos, nos últimos dois meses alcançou calçadas e praças da região. Como consequência, moradores e comerciantes reclamam que houve aumento no número de roubos e que os criminosos teriam até um ponto fixo para a venda de produtos dos crimes. Procurada, a prefeitura informou que planeja uma ação para remover as moradias. A Polícia Militar nega aumento da violência.

A praça do Peixe, na entrada do bairro Lagoinha, é um dos pontos de maior concentração das moradias irregulares. No local e debaixo dos viadutos, a reportagem flagrou vários moradores de rua usando drogas. Um taxista que trabalha na região conta que os roubos a pedestres são cada vez mais frequentes e que os objetos são vendidos perto da maior delegacia da região, o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP). “Por volta das 19h, eles começam a oferecer tênis, celular e roupa. Depois usam o dinheiro para comprar drogas”, disse.

A funcionária de um bar nas proximidades confirmou que casos de roubos são constantes. “Muitos deles roubam aqui perto mesmo. Pela manhã, as pessoas têm medo de pegar o ônibus na (avenida) Antônio Carlos”, relatou.

O dono do mesmo estabelecimento lamentou o aumento do número de crimes e deu como exemplo o caso “da dona da academia da rua de trás”, que foi assaltada há uma semana, quando abria o estabelecimento.

A Prefeitura de Belo Horizonte informou que tem conhecimento da situação e que os barracões serão retirados nas próximas semanas. Ainda conforme o Executivo, há moradores de rua em outros pontos da cidade, como na área central, mas os barracos, que serão retirados, estão apenas na praça do Peixe.

O tenente-coronel Wanderley Wilson Amaro, responsável pelo 34° Batalhão de Polícia Militar, negou que haja um aumento de ocorrências de roubo na região ou de reclamações relacionadas a moradores de rua. No entanto, ele reconhece que as vítimas podem não estar registrando os crimes e pediu que as ocorrências sejam feitas.

Análise. O sociólogo Moisés Augusto, da PUC Minas, acredita que a questão dos moradores de rua não tem sido tratada adequadamente pelo poder público. “Isso é sintoma de algo maior: ausência de políticas efetivas. É preciso atacar a raiz desse problema, o que não acontece em Belo Horizonte. Não podemos generalizar os moradores como usuários de drogas ou pedintes”.

Segundo Augusto, a solução não é “tapar buracos” e fingir que o problema não existe. Nem mesmo usar a repressão como estratégia. A solução, para ele, passa pela formação de equipes multidisciplinares, com psicólogos, assistentes sociais, médicos, educadores. “O número de profissionais que realizam esse trabalho nos dias de hoje é muito pequeno. O importante é lembrar que colocar essas pessoas às margens da sociedade não é uma solução”, acrescenta.

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