Depressão não tem graça

Confundida com tristeza, depressão é doença que atinge 350 milhões de pessoas

iG Minas Gerais | Bárbara França |

A tendência ao isolamento é um dos sinais da depressão
Arquivo Stockxper
A tendência ao isolamento é um dos sinais da depressão

“Quando uma pessoa que sofre de depressão morre por suicídio, tenho a sensação de que lá se foi um companheiro que sucumbiu no campo de batalha”. O crítico de cinema Pablo Villaça compartilha com o ator Robin Williams, morto na última segunda-feira (11), não apenas o amor pela sétima arte, mas a luta contra a doença. Apesar de muitos não encararem o problema dessa forma, a depressão é, sim, uma doença e atinge 350 milhões de pessoas em todo o planeta, segundo dados da Organização Mundial de Saúde (OMS). No Brasil, os números impressionam: 10% da população sofreria desse mal, de acordo com a entidade. Ainda assim, um grande preconceito prevalece. É comum ouvir da boca de amigos e familiares termos como “fraqueza”, “frescura” ou mesmo “egoísmo” para qualificá-la. Mas tais definições pejorativas só perpetuam uma ideia bem errada dessa patologia que chega a matar.

Imagine, então, a repercussão quando a ideia toma a TV. Mesmo tendo se desculpado depois, o âncora do noticiário norte-americano Fox News, Shepard Smith, considerou o suicídio de Williams “uma covardia”. Villaça, que enfrenta a depressão há 24 anos, acredita que hoje as pessoas estão bem mais esclarecidas, mas um comentário como esse prejudica a procura por tratamento. “Não é estado de espírito, não é só sacudir a pessoa. É algo que inutiliza o paciente, ele não consegue enxergar um caminho além daquele dia, é um vazio profundo, uma desesperança profunda. Algo que massacra, é uma doença”, reforça o crítico.

Traços

Pode ser difícil para quem está de fora entender, mas não se trata de ir ao barzinho com amigos, se distrair e, enfim, melhorar. Como escreveu o compositor baiano Caetano Veloso, cada um sabe a dor e delícia de ser o que é, mas algumas características comportamentais, biológicas ou psicológicas podem sinalizar a ocorrência da depressão. Para Márcia Maria Rosa Vieira Luchina, professora de psicanálise do departamento de Psicologia da UFMG, a perda de interesses de forma geral é um dos sintomas. “Há um desligamento daquilo que torna o sujeito vivo, vai havendo certa desconexão, uma perda de prazer. Ele quer nada”, define.

O presidente da Associação Mineira de Psiquiatria, Maurício Leão, acrescenta ainda alterações de tensão, de memória, somatizações, como dores de cabeça, toráxicas e musculares, além de desânimo e da tendência ao isolacionismo.   Após o suicídio do humorista Fausto Fanti, da dupla “Hermes & Renato”, no fim de julho, o irmão Franco Fanti fez o apelo: “a depressão é uma doença séria e precisa de tratamento”. E assim como outras, quanto mais cedo diagnosticada, melhor. A partir daí, segundo Leão, é avaliar o caso de tratamento com antidepressivos e do suporte com psicoterapia. Não adianta motivar: “anda, levanta! Converse comigo!”. “Só falar não vale. É preciso que o sujeito fale onde há possibilidade de ser escutado. O sujeito sem vontades, sem projetos, já está comunicando algo, mas é necessário que essa fala possa ser escutada para provocar uma mudança”, comenta Márcia Rosa.   Pesquisas devem ser aprofundadas   De todas as doenças graves, físicas ou mentais, a depressão tem se mostrado uma das mais difíceis de derrotar. Apesar da variedade de medicamentos antidepressivos – hoje há 26 deles – apenas um terço dos pacientes com depressão grave experimentam uma remissão completa após a primeira rodada de tratamento, e tratamentos sucessivos com medicamentos diferentes trazem algum alívio para apenas 20% a 25% deles.   Cerca de 30% das pessoas com depressão têm algum grau de resistência ao tratamento. E, quanto maior o grau de resistência, maior será a probabilidade de uma recaída no futuro, mesmo se o paciente continuar a tomar o medicamento.   Embora tenha-se aprendido muito sobre a depressão – por exemplo, a recente pesquisa que mostra que o sucesso do tratamento da insônia em pacientes deprimidos basicamente duplica a sua reação a uma droga como o Prozac – ainda não se entende qual é a sua causa fundamental. A velha ideia de que a doença resulta da deficiência de um único neurotransmissor como a serotonina ou a dopamina é claramente simplista e equivocada.   E experiências colaborativas entre especialistas da área têm sido tentadas. Não muito tempo atrás, Audrey Gruss, uma filantropa experiente e cheia de energia que criou a Fundação de Pesquisa Esperança para a Depressão, reuniu um grupo de neurocientistas com formação geral e clínicos para procurar soluções. Mas não é a primeira a experimentar uma abordagem colaborativa; outras tentativas estão sendo patrocinadas pela Fundação MacArthur e o Consórcio Pritzker.   “Um problema complexo como a depressão vai muito além do que um único cientista ou laboratório podem resolver”, disse o líder do grupo na fundação Esperança, Huda Akil, professor de Neurociências e Psiquiatria na Universidade de Michigan (EUA). “O que é ótimo na nossa colaboração é que podemos pensar em ideias ambiciosas e assumir riscos sem nos preocuparmos com o parecer das agências de fomento”, como o Instituto Nacional de Saúde Mental, a principal fonte de financiamento federal da pesquisa psiquiátrica.   Um dos principais objetivos da pesquisa é entender quais circuitos cerebrais e genes são alterados pela depressão, como o ambiente interage com esses genes, e como reverter as repetidas agressões biológicas da doença. Isso exigirá a integração de uma ampla gama de ferramentas, conforme explicou ela: a genômica, a epigenética, a eletrofisiologia, os modelos animais e a psiquiatria clínica.  

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