Minha alegria é triste...

Pesquisa inglesa relaciona comédia e transtornos

iG Minas Gerais | Bárbara França |

O ator Robin Williams enfrentava a depressão há anos
Reed Saxon/Associated Press – 15.6.2007
O ator Robin Williams enfrentava a depressão há anos

Robin Williams era uma daquelas celebridades que pareciam imortais, pelo menos para a geração que cresceu nos anos 1980. Filmes como “Bom Dia, Vietnã”, “Sociedade dos Poetas Mortos”, “Tempo de Despertar”, “O Pescador de Ilusões”, “Uma Babá quase Perfeita”, “Jumanji” e “Gênio Indomável” são apenas alguns destaques de uma filmografia que, se não constituída de clássicos, ajuda a contar a história do cinema mundial. Com uma habilidade interpretativa e de improvisação que ia da comédia ao drama com facilidade, o ator norte-americano, aquele eterno médico-palhaço de “Patch Adams – O Amor É Contagioso”, chocou a todos na última segunda-feira (11) ao colocar fim à própria vida.

O artista tinha 63 anos e lutava contra a depressão há décadas. Abusos de álcool e o uso de drogas ilícitas, como cocaína, eram frequentes, compondo uma realidade um tanto surpreendente para quem não estava por dentro das notícias que cercavam sua carreira. Se acreditava-se que rir é o melhor remédio, sentimento semelhante causou a notícia do suicídio de Fausto Fanti, humorista da dupla “Hermes & Renato”, que também sofria de depressão, no dia 30 de julho. No entanto, a relação entre a comédia e transtornos psiquiátricos é mais próxima do que se imagina, como aponta o estudo “Psychotic Traits in Comedians” (Traços Psicóticos em Comediantes) publicado este ano no “The British Journal of Psychiatry” (Jornal Britânico de Psiquiatria).

No estudo, pesquisadores do departamento de Psicologia Experimental da Universidade de Oxford, na Inglaterra, convidaram 523 comediantes a preencher um questionário baseado em uma escala de sentimentos e experiências que avaliava sintomas próximos do transtorno bipolar e da esquizofrenia, tais como: experiências inusitadas, como pensamento mágico, crença em telepatia; dificuldade em focar os pensamentos, capacidade reduzida de sentir prazer social ou físico, incluindo aversão à intimidade; e tendência à impulsividade e reduzido autocontrole. Para comparação, 364 atores e 831 não artistas também se submeteram ao questionário. Além de alcançarem pontuação mais alta que os outros em todos os quesitos, os resultados dos comediantes apresentaram um paradoxo: tendências tanto à introversão e depressão, quanto à extroversão e euforia.

Vantagem às avessas

Segundo a pesquisa, é possível associar essa personalidade “maníaco-depressiva” à maneira como se faz o humor. Em geral, é a habilidade rápida de juntar termos inusitados e fazer associações a princípio desconexas o que gera a graça da piada. “Os resultados sugerem que, em comediantes, os traços da personalidade psicótica geralmente representam uma vantagem para eles. Ou seja, é o que os permite ter uma habilidade criativa incrível, mas, por outro lado, significa que eles podem ter uma predisposição maior a desenvolver doenças psiquiátricas se eles se tornam patológicos”, explica a inglesa Victoria Ando, uma das autoras da pesquisa.

O subchefe do departamento de Saúde Mental da UFMG, Rodrigo Nicolato, conta que, embora não haja comprovação, a ligação entre transtornos depressivos e gênio literário, artístico ou científico foi desenhada desde a Antiguidade. “Mas não podemos inferir que quase todo artista apresenta vulnerabilidade para o quadro depressivo ou vice-versa”, afirma ele, alertando contra generalizações.

Ainda assim, para Daniel Martins de Barros, psiquiatra do Instituto de Psiquiatria do hospital das Clínicas de São Paulo, para se fazer humor é preciso ter uma visão de mundo que note as contradições, os defeitos e problemas da sociedade, e isso pode ser mais comum em pessoas com traços depressivos. “O dom de criar piadas parece ser mais fácil para as pessoas que vivem perigosamente próximas tanto da psicose como dos picos e vales do humor. Ainda que não sejam doentes, os comediantes caminham na corda bamba, e da mesma forma que o equilibrista, nos emocionam justamente por correrem o risco de cair”, afirmou Barros no artigo “Tristes Palhaços”, publicado em seu blog após a morte de Williams.

A dor de existir

“Ninguém jamais escreveu, pintou ou esculpiu, modelou, construiu ou inventou a não ser para sair do inferno”, certa vez disse o poeta e escritor francês Antonin Artaud (1896-1948). Nesse sentido, a criatividade aparece como forma de expressar o vazio e as angústias que permeiam a vida do ser humano, algo que o crítico de cinema, Pablo Villaça, percebe na própria atuação de Williams. “Podiam ser as comédias mais escrachadas, sempre existia uma melancolia, uma vulnerabilidade, uma fragilidade recorrente na obra dele. Avaliando isso depois de sua morte, torna-se ainda mais pungente. É doloroso pensar até que ponto era apenas escolhas dele como ator ou não. De qualquer forma, para constituir um papel, ele extrai de dentro de si, busca em sua própria experiência a inspiração”, sugere Villaça.

Isso pode ser interpretado como uma maneira encontrada pelo sujeito para lidar com as suas questões mais íntimas, segundo a professora do departamento de Psicologia da UFMG, Márcia Maria Rosa Vieira Luchina. “Eu acho que os artistas não são pessoas convencionais. Eles inventaram soluções não convencionais para lidar com uma dor, um sofrimento, uma diferença... Mas isso não pode servir de motivação para o culto à depressão", alerta.

Tristes Palhaços

Naturalidade

Chico Anysio (1931-2012) dispensa apresentações. No papel do rabugento mestre da “Escolinha do Professor Raimundo”, o humorista cearense fez várias gerações rirem. Durante 24 anos, lutou contra a depressão e declarou que, se não fosse o tratamento psiquiátrico, ele não teria conseguido fazer 20% do que fez. Segundo sua filha, Anysio não tinha vergonha e tratava com naturalidade a doença. 

Bipolaridade

Stephen Fry é um ator, escritor e roteirista inglês. Aos 56 anos, é conhecido pela participação em filmes como “V de Vingança”, “Sherlock Holmes: o Jogo de Sombras”, pelo quiz show da BBC “QI” e por emprestar sua voz a diversas animações. Foi diagnosticado com transtorno bipolar e, hoje, é presidente da Instituição de Saúde Mental “Mind”. Recentemente, ele confessou já ter tentado suicídio. 

Conhecimento

O humorista Fausto Fanti ficou famoso ao integrar o programa “Hermes & Renato”, que foi ao ar na MTV Brasil de 1999 a 2009. Segundo seu irmão, Franco Fanti, ele estava em um estágio avançado de depressão quando cometeu suicídio no dia 30 de julho, aos 35 anos. Franco espera que o caso possa ajudar a instruir as pessoas sobre a doença e sobre a necessidade de tratamento. 

 

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