Arte além da morte

Peça tem como temas a despedida, a perda, a finitude e o estranhamento diante da morte e da vida

iG Minas Gerais | Giselle Ferreira |

Espetáculo tem direção de Ludmila Ramalho da Companhia Afeta
GUTO MUNIZ/DIVULGAÇAO
Espetáculo tem direção de Ludmila Ramalho da Companhia Afeta

Estar vivo é um risco. Estar em cena é um risco. Experimentar no palco, sem a máscara do ator, é, portanto, uma forma de se aproximar do real para, talvez, melhor entendê-lo. Beatriz França é a atriz que se veste – ou melhor, se despe – de si para homenagear, no teatro, a amiga e também atriz Cecília Bizzotto, assassinada durante um assalto em sua casa, no Santa Lúcia, há dois anos. Sem formato definido, o espetáculo “Talvez Eu Me Despeça”, tem direção de Ludmilla Ramalho, da Cia. Afeta.

Com estreia marcada para a próxima sexta (22), na Funarte MG, a peça transita entre a performance e o teatro documentário e tem, como temas caros, a despedida, a perda, a finitude e, sobretudo, o estranhamento diante da morte e da vida.

E, assim como a cineasta e atriz Petra Costa gravou “Elena” (2012) para lembrar e se declarar à irmã, Beatriz e equipe abraçam o estilo de “retrato afetivo” e fazem do Galpão 3 da Funarte MG um relicário de Cecília. A montagem conta com uma pequena exposição de “objetos-memória” relacionados a ela.

“Não consegui imaginar outra forma para homenageá-la”, conta Bião (Beatriz) sobre Ciça, como se chamavam. “A gente propõe uma festa-despedida. A morte da Cecília é uma metáfora para pensarmos sobre como a vida continua depois que a gente perde alguém. As contas continuam chegando, a gente continua precisando lavar a roupa... Fica o vazio, mas precisamos seguir com a vida – a própria vida nos coloca pra frente”, explica a atriz, que por dez anos conviveu intensamente com Cecília.

De colegas de um grupo sobre estudos shakespearianos elas se descobriram vizinhas e, não muito depois, melhores amigas. Logo antes da fatalidade, elas preparavam um espetáculo híbrido, como o que Beatriz apresenta agora.

“Escrevemos juntas um texto sobre o ofício do artista hoje, ainda muito indefinido. Nossa questão era: o que queremos compartilhar com o público?”, lembra a atriz, confrontada agora, novamente, com o desafio de tornar universal sua dor e seu tributo.

“Só vou descobrir sobre isso quando estiver cara a cara com as pessoas. A perda, em si, é universal – seja a morte ou a separação –, e nós estamos falando da vulnerabilidade do humano em relação a vida. A morte é a única certeza que a gente tem. Diante disso, começamos a pensar na guerra entre Palestina e Israel, por exemplo. As pessoas que estão lá perdem os seus queridos todos os dias. Será que isso é normal pra eles? Será que em determinado momento a gente se acostuma?”, explica Beatriz, que se ancora em imagens de conflito explícito, como as do filme “Noite e Neblina” (1955), de Alain Renais, sobre o holocausto, para remeter ao ponto de tensão e conflito silencioso a que somos submetidos diariamente.

Inserções

No ritual festivo de despedida que Beatriz oferece à amiga, também é recorrente, inclusive numa fala da própria Cecília, a busca pelos encontros mais íntimos, verdadeiros e transformadores.

“É um espetáculo baseado na minha relação com a Ciça e com a plateia, mas tentamos tornar o texto político e social. Trazemos matérias jornalísticas em áudio pra ampliar a reflexão e não ficar só no meu umbigo. Uso tudo isso pra falar de encontros e despedidas, de risco e de liberdade”, conta Beatriz, que o tempo inteiro recomenda aos espectadores aproveitem o instante, já que ela também pode se despedir a qualquer momento.

"Talvez Eu Me Despeça"

Dir. Ludmilla Ramalho.

Funarte MG (r. Januária, 68, centro, 3213- 3084).

Estreia dia 22 (sexta). Quintas e sextas, às 20h; sábados, às 17h e 20h; e domingos, às 19h. R$ 10 (inteira). Até dia 31.

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