Projeto "Foi o carteiro" leva mensagens anônimas a vizinhos

Criado por duas estudantes de Juiz de Fora, o projeto começou com a disseminação de mensagens entre amigos e acabou ganhando as casas de vizinhos desconhecidos; hoje, o projeto tem adeptos até de outros países

iG Minas Gerais | JULIANA BAETA |

As mentoras do projeto, Mylena e Thaís
Arquivo pessoal
As mentoras do projeto, Mylena e Thaís

Elas possibilitaram que homens conseguissem conversar com as suas mulheres durante as guerras, e que amantes de todos os tempos pudessem trocar carícias apaixonadas, mesmo sem precisar se tocar. Guerras e tréguas começaram também assim, e notícias sobre casamentos e mortes só chegavam às famílias por meio delas. Países foram colonizados graças a elas, como o Brasil, que teve suas primeiras impressões enviadas em uma delas diretamente para Portugal. As cartas fazem parte dos primórdios da comunicação, e são as grandes responsáveis por tragédias e vitórias, que refletem até hoje no comportamento humano. 

Apesar de andarem obsoletas ultimamente por causa do advento da internet, duas estudantes de Juiz de Fora se lembraram com carinho delas, e decidiram utilizá-las para deixar o mundo um pouquinho melhor. Assim nasceu o projeto “Foi o carteiro”, criado há cerca de cinco meses por Mylena Melo, de 20 anos, e Thaís Andrade, de 19 anos, amigas e colegas de sala do curso de jornalismo da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).

“A gente sempre gostou muito de poesia e conversávamos bastante sobre isso, até que comentei com a Thaís sobre como seria legal ir na caixa de correios e encontrar alguma coisa diferente. Ela concordou e decidimos transformar isso em algo que poderíamos levar para a vida de outras pessoas”, contou Mylena.

E foi assim, com um lápis na mão e uma ideia na cabeça, que as duas começaram a copiar trechos de poesia ou de músicas que gostavam, e colocar nas caixinhas de correios da cidade. Pouco depois, elas passaram a ideia para os amigos, que passaram para outros amigos, e assim se disseminou o projeto.

Pouco depois elas criaram a página “Foi o carteiro” no Facebook que, hoje, já conta com mais de 2 mil curtidas. É na rede social que a ideia arcaica de cartas à mão e a exposição da internet se unem. Remetentes e destinatários podem postar na página cartas que enviaram ou receberam. São poemas - alguns, autorais -, músicas, pensamentos, declarações de amor, a maioria das vezes, sem assinatura. Mas ela é o de menos quando a intenção é causar alegria ao próximo, não importa quem seja.

“Uma das histórias legais que me lembro, foi de um rapaz que contou pra gente que estava andando na rua e viu uma senhora chorando, sentada na porta da casa dela. Ele ficou sem graça de falar alguma coisa, mas sentiu que precisava ajudar de alguma forma. Aí ele voltou em casa, escreveu em um papel o trecho de um livro que ele gostava e colocou na caixa de correios dela. No outro dia ele passou novamente por lá, mas a senhora já não chorava mais. Ele perguntou se ela havia recebido a mensagem, e ela disse que não só havia recebido, como tinha mudado o dia dela. Essa história foi marcante pra mim, porque foi a primeira vez que alguém nos procurou no Facebook para falar sobre isso”, contou Mylena.

Boas ideias costumam ultrapassar fronteiras e com o o projeto “Foi o carteiro” não é diferente. Na página, há postagens de usuários de outros estados e até de outros países como Peru e Argentina. As meninas receberam até o agradecimento do coordenador do curso de administração da Universidade Federal do Mato Grosso do Sul, que contou que aplicou a ideia na recepção dos calouros do curso, incentivando-os a enviar mensagens para os veteranos e vice-versa.

Para aderir ao projeto, não é necessário gastar dinheiro ou horas de trabalho. É só pegar um pedaço de papel, como explica Mylena, escrever algum trecho (de música, de poemas ou de livros), e colocar na caixinha de correio de alguém, que pode ser um desconhecido ou um conhecido. “Tem gente que prefere mandar via correios mesmo, uma espécie de carta anônima, e tem gente que simplesmente coloca a mensagem diretamente na caixinha de alguém”, esclarece a estudante.

Para inspirar

O filme “Nunca te vi, sempre te amei”, de 1987, dirigido por David Hugh Jones, é um bom exemplo do efeito e da reação que as cartas podem causar. Ele traz a história de uma escritora americana, vivida por Anne Bancroft, e do gerente de uma livraria em Londres, interpretado por Anthony Hopkins, que passam a ser corresponder por meio de cartas.

Trocando confidências, histórias e culturas, eles passam anos se correspondendo e acabam criando uma forte relação de amizade, sem sequer se conhecerem pessoalmente. Mas deve ser visto com  o coração preparado para se emocionar e, de preferência, com uma caixa de lencinhos ao lado. 

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