A figura do idiota moderno

iG Minas Gerais |

Certa vez, li um texto intitulado “O Triunfo dos Idiotas”, do economista Paulo Nogueira Batista Jr. Ele dizia que o fenômeno não era tão recente, mas que vinha se agigantando ano após ano. Nelson Rodrigues chegou a falar da infiltração de idiotas em todas as áreas aqui no Brasil. Em outros tempos, o idiota, consciente da sua inferioridade, mantinha absoluta discrição. Raramente dava um pio. Só os melhores falavam, escreviam, representavam e comandavam. Em certo momento da história mundial, entretanto, o idiota despertou para um fato básico: a sua avassaladora superioridade numérica. Começou então a perder suas antigas inibições. Surgiu, triunfante, o fenômeno na sua forma moderna – o idiota sem o menor vestígio de superego. Hoje eles estão por toda parte, e um dos segredos do sucesso do idiota é um profundo desprezo pela inteligência do povo. Mesmo para sobreviver, simplesmente sobreviver, precisamos fazer concessões ao idiota. E o pior é que a máscara acaba se prendendo ao rosto. Isso é fantástico, mas confesso a minha ingenuidade ou incompetência para identificar esse idiota moderno. No futebol, eu não sei se ele está em maior número na torcida ou na figura do dirigente. Quem sabe somos todos nós envolvidos nesse esporte.

Dívidas. Digo isso porque é difícil entender como se permitiu a um clube de futebol dever tanto dinheiro. De que lado estava o idiota neste contexto que estou citando? Ou será que o idiota era o torcedor de cada clube que, ao longo da história, gastou uma boa parte do seu orçamento pagando ingresso, comprando camisas e outros objetos do time de coração?

Cadê? O pior é que não acham o culpado nesse processo de endividamento dos clubes. Ou se culpam todos que em determinado momento da história dirigiram os clubes, ou se isentam todos e culpa o idiota do “mercado” como gostam de fazer os economistas. Uma outra possibilidade é dizer que o responsável é o idiota que estava no governo e fez vista grossa para as dívidas dos clubes.

Povo. Quem já leu o livro “O idiota”, de Dostoiévski, terá condições de identificar essa figura que vive entre nós, fazendo e desfazendo coisas, construindo e desconstruindo pensamentos em prol de um pequeno grupo que adora ver o povo como idiota. O problema é que o povo está cheio de dúvidas, e os idiotas, cheios de certezas.

Estudo. Em um levantamento feito por uma empresa de consultoria, contando cem clubes que disputam as quatro divisões do futebol brasileiro, todos devem. Uns mais, outros menos, mas todos têm dívida. Cerca de 90% gastam mais do que arrecadam, e ano após ano a bola vermelha vai crescendo. Será que tem dirigentes pobres? Acho que não, até porque futebol hoje é para rico.

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