Como libertar o seu monstro interior

Uma das maiores referências do terror, adaptação de Stephen King tem exibição em DCP neste domingo às 16h

iG Minas Gerais | daniel oliveira |

Nicholson vive o autor que enlouquece ao tentar escrever livro em um hotel
warner
Nicholson vive o autor que enlouquece ao tentar escrever livro em um hotel

Em uma das cenas mais icônicas de “Alien”, a criatura do título literalmente nasce do ventre de um dos personagens. É uma das apresentações mais efetivas, e chocantes, de um vilão em um filme. Mas a melhor introdução de um monstro no cinema até hoje é provavelmente a imagem de Jack Nicholson, como o escritor Jack Torrance, golpeando a porta com um machado em “O Iluminado”, que será exibido na mostra “De Olhos bem Abertos” no cine Humberto Mauro neste domingo. A ideia de um monstro aprisionado dentro do protagonista, que luta e finalmente consegue irromper à vida, se libertar, é uma síntese quase perfeita do conflito e do terror psicológico que tornaram o longa um dos maiores clássicos do gênero de todos os tempos.

Além, é claro, de ser uma cena assustadora, capaz de tirar o sono de muito marmanjo. E se Nicholson recebe muitas louros pelo antológico “Here’s Johnny!”, é a performance de Shelley Duvall como Wendy, a esposa do protagonista, que dá ao espectador a dimensão do desespero na cena. Atormentada e maltratada pelo diretor Stanley Kubrick, que proibiu a equipe de ampará-la durante as filmagens do longa, a atriz leva o arquétipo misógino da “pobre donzela” dos filmes de terror a um grau de realismo histérico nunca visto em outra produção.

Kubrick não infernizou a vida de seus atores por acaso. O diretor calca o poder angustiante de “O Iluminado” na lenta e dolorosa desintegração psicológica de seus personagens. Não é o hotel que causa medo no filme. As imagens das garotinhas gêmeas e do rio de sangue jorrando do elevador são tão assustadoras até hoje, não porque estão realmente ali, mas porque podem estar na verdade dentro dos personagens – e isso é muito mais perturbador. E o fato de que tudo é mais sugerido do que explicado amplifica essa inquietação.

Assim como em todo longa do cineasta, essa descida rumo à anarquia do espírito é marcada pelos acordes do compositor György Ligeti. Favorito de Kubrick, aqui mais do que nunca ele deixa claro para o público, o tempo todo, que algo não está certo. E assegura que, mesmo quem fechar os olhos, não vai conseguir dormir à noite.

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