Novidades e desaparecimentos gastronômicos

iG Minas Gerais |

acir galvao
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O gosto pela novidade é humano e legítimo. Admitida essa tendência, que  também é direito, convenhamos que o uso e abuso dele, em matéria de restaurante, costuma vir acompanhado da morte de inúmeros estabelecimentos que podiam ter vida longa. Na província, isso é mais grave, tanto por uma questão numérica quanto pela inexistência de várias centralidades dispersas pela urbe. O que acontece com as opções de lazer gastronômico de Lourdes ou da Savassi, por exemplo, ainda impacta o panorama como um todo na capital. Pode ser que em dia não muito distante deixe de ser assim. Que venham as diretrizes da quarta conferência municipal de política urbana nessa direção! Mas não importa o motivo nem o impacto, quando fecham a Belo Comidaria e O Dádiva, a gente fica um cadinho triste, mesmo que não sejam propriamente a nossa praia. Estive em ambas poucas vezes, mas o bastante para saber que eram casas interessantes. A primeira, criativíssima, do cardápio à decoração, à vontade, com aquela coisa bacana de você comer e ter na prateleira para levar consigo. Eu devia ter ido lá mais vezes. Ficava cheia demais, quase sempre, e é absurdo pensar que tenha cerrado as portas nesse contexto. A segunda me incomodou por um bom tempo pela ostentação juntinho à calçada.  Depois, se integrou à paisagem como uma espécie de símbolo transparente de nossa desigualdade abissal. Mas tinha requinte, qualidade, clientela cativa, e viu brilhar talentos como o de Felipe Rameh. Se precisavam de ajustes ou mudança de sócios são outros quinhentos, o fato é que fechar não devia ser a primeira alternativa à mão. Uma pena. Tudo o que é sólido desmancha no ar? Nesse caso, basta meia hora de reflexão sobre a consistência dos projetos, a durabilidade dos sonhos e do compromisso com a clientela para saber que sequer existe uma pretensão de solidez. No geral, morro de rir quando vejo plaquinhas informando na fachada o ano da fundação. Há poucas exceções respeitáveis, como a da Drogaria Araújo, que tranquiliza nossas noites desde 1906. Bom saber, ou pelo menos acreditar, que haja uns portos seguros espalhados pelo mundo onde eu possa matar saudade de mim e de minhas referências. O lisboeta Martinho da Arcada, o madrilenho Botín, o carioca Bar Luiz, o portenho Café Tortoni me vêm agora à mente, ancorando poderosamente a memória. É preciso carinho com o que a entrada em cena de um novo estabelecimento é capaz de produzir no imaginário das pessoas que o frequentam, se tornam assíduos, trocam ali seus beijos e repercutem nas paredes seu alarido depois da primeira rodada de chope. Também é preciso que chefs jovens, criativos e competentes encontrem empresários experientes para parcerias com maior chance de vida longa. Se o caro não vive sem o barato, a criatividade e o arrojo não dispensam o choque de realidade. Por isso, pessoal, não saia ninguém abrindo portas por aí antes de ter um bocado de certeza sobre o que isso significa, para si e para os outros. E antes que mais uma criação da última década caminhe para definhar, sapeco uma crítica ao padrão inaceitável de qualidade do bufê de chá da tarde do Graciliano, no Pátio Savassi. O centro comercial, a Savassi, a clientela e o próprio nome que a casa ostenta pedem mais, muito mais. A pobre garçonete se desdobrava entre a balança e a leiteira quente. Saquinhos de capuccino para serem misturados na mesa pelo cliente? Ora, isso é coisa de balcão, de cafeteria de aeroporto, jamais de um ambiente com lustres de murano. Não entrei ali sonhando alto. Para isso, o mais perto que há é o brunch do Hotel Alvear, em Buenos Aires. Mas esperava mais fineza, classe e sobretudo salgados e bolos quentinhos, de massa delicada e recheio elaborado.

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