Você não tem o direito

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Ela planejou desde o começo do ano passar o fim de semana na cidade histórica. Convenceu os pais, convocou as amigas. Preferiu uma casa cheia de estudantes e possibilidades do que se hospedar em uma pousada com café da manhã e ventilador no teto. Comprou a passagem com três semanas de antecedência e a mala arrumada dorme no pé da cama há dois pares de dias. Mas isso não dá a você o direito. Você frequenta uma instituição que ostenta uma história de 138 anos, encravada em uma cidade pacata e libertária, com seus 80 mil orgulhosos habitantes. Desfruta do privilégio de ter moradia estudantil gratuita e de qualidade, que deveria ser um exemplo para todas as universidades públicas do país. Mas isso não dá a você o direito. A turminha escuta desde sempre que a vida republicana é um verdadeiro desbunde e já pensa em todos os excessos que pretende colecionar nós próximos dias. A galera deixou a prudência em casa e decidiu por um pé na jaca coletivo e acelerado. Mas isso não dá a você o direito. A moça leu em algum manual que a soma de liberdade, testosterona, bebidas, drogas e falta de berço vai sempre deixar a mulher mais vulnerável. Que, infelizmente, ou ela participa da bandalheira ou sai fora. Que não existe meio-termo. Que são as regras. Que é assim desde que o mundo é mundo. Que “boa noite Cinderela” é mais velho que o mar. Que não se pode meter a boca em qualquer lugar ou em qualquer copo. Mas isso não dá a você o direito. Poderosa e periguete, ela está descontrolada. Com a mão na cabeça, vai até o chão. Com o dedinho na boca, ela está pirada. Rebola, incomoda, enlouquece, chama a atenção, perde a linha, deixa a marmanjada babando. Mas isso não dá a você o direito. Ela escolheu minissaia e decote para aquela noite. Passou a tarde toda num shortinho. Ignorou os conselhos de que mais comportada evita ataques. Esqueceu as advertências de que muita pele à mostra faz por merecer. Recusa-se a ter que repensar a roupa para escapar de constrangimentos. Mas isso não dá a você o direito. Tímida, a menina é incapacitada de dizer não. Aceitou o convite. Foi sozinha. Não recusou o flerte. Bebeu uma, duas, três doses para poder se soltar. Conversou com desconhecidos. Dançou leve e faceira no meio da sala. Chorou com saudade do ex. Ficou carente. Bebeu mais para esquecer. Mas isso não dá a você o direito. Pelo WhatsApp, você recebe um vídeo de uma festa, em que um garoto diz: “Sabe a lei dos cinco segundos? É assim: a mulher caiu no chão (de bêbada), não levantou em cinco segundos, pode pegar. Se continuar no chão, pode estuprar”. Acha graça. Manda pros amigos. Eles acham graça. Mandam pros amigos. Eles acham graça e o vídeo bate a marca de 1 milhão de visualizações. Mas isso não dá a você o direito. Reza a lenda que sua tataravó índia foi caçada no mato pelos cachorros de seu tataravô português, que a obrigou a “casar” com 12 anos de idade. Mas isso não dá a você o direito. Uma em cada cinco mulheres será vítima de estupro no decorrer da vida. Algumas dessas vítimas tiveram a coragem de contar a violência que sofreram para o repórter Lucas Faria, que assinou a reportagem “Mulheres revelam histórico de estupros em repúblicas” publicada por este jornal na última segunda-feira. Nos comentários que vieram, alguma solidariedade, mas muita intenção de justificar comportamentos criminosos. Mudar isso inclui punir agressores e entender: mulher não é mercadoria. E minissaia, decote ou bebida não dá a você o direito.

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