A moça e o 'velho' pai

iG Minas Gerais |

Era Natal. A jovem queria, de alguma forma, mostrar a ele seu carinho. Poderia ter comprado um presente qualquer – meias, lenços, gravata ou uma bela caneta, mas preferiu as palavras. Ela sabia que verso ou prosa teriam mais efeito naquele senhor ranzinza. Enquanto pensava em algo especial, um turbilhão de lembranças veio visitá-la. Sorriu, respirou fundo e agradeceu profundamente a Deus por tê-lo em sua vida e pelo quanto aprendeu com ele. Também se sentiu grata por saber perdoar, sempre que necessário. Voltou à infância. Mas não conseguiu lembrar de um abraço terno ou de um doce afago. Os dois nunca brincavam. Passavam pouco tempo juntos. Ele viajava muito. E a casa ficava mais tranquila quando estava fora. Os dias eram mais harmônicos. Ouviam-se mais sorrisos. Menos cobranças, talvez. A confusão era menor para a pequenina. Naquele tempo, ele gostava de festas. Música. Violão. Alegria. Cerveja em excesso. Muita gente. Casa cheia de parentes. Mas o pessoal ia embora quando começavam as ofensas, que sempre acabavam em tumulto. E a garotinha ali, absorvendo tudo. Cada detalhe. Creio eu, que venha daí o atual temor dela em produzir eventos. Sempre acha que algo pode acabar dando errado. As imagens dos dias difíceis são bem nítidas na memória da moça. E aconteceram em datas comuns, sem qualquer plateia. Os utensílios se espatifavam pela parede. E a garota observava tudo. Uma ação que para ela parecia ocorrer em câmera lenta. O tempo passou um pouco. Diante de seus olhos adolescentes, ainda enxergava um homem forte, inteligente e dominador. Chegou a sentir raiva pela prepotência e, principalmente, por não saber amar. Ela ainda desejava abraços acolhedores. Ele não sabia abraçar. Quanto mais ela crescia, o ímpeto também crescia dentro dela. Combativa, o enfrentava. Defendia suas ideias. Ainda não podia perceber o quanto se parecia com ele. Moça feita e corajosa, foi embora. Voltou. Partiu de novo, tornou a retornar e a sair. E o homem ali, a observar cada um de seus passos com atenção. Mesmo de forma velada, queria sempre interferir. Essa era sua forma de ajudar. Anos se foram nas idas e vindas. Ambos deixaram para trás suas próprias razões. Ela aprendeu sobre o poder do tempo. Ele encarou o fim da própria onipotência. O homem conheceu a dor profunda de seu próprio silêncio. A jovem mulher sofreu com o silêncio dele. Fortaleceram-se. Cada qual da sua forma. Hoje, mulher feita que é, ela percebe o quanto dele existe dentro dela. O vê ao se mostrar perfeccionista, ao se portar em público, ao defender os próprios direitos ou ao vibrar com projetos. A intensidade também veio dele, ela apenas aprendeu a administrá-la. O homem já é idoso, embora não admita. O corpo está franzino, mas a alma continua forte. Memória impecável. Se a vida foi dura com ele, o tempo foi generoso. Fez dele melhor. Hoje, sorri muito. Ainda não abraça. Mas não precisa mais. Ela não quer. A mulher aprendeu sobre outras formas de amar. Percebe que ele se orgulha dela, do seu jeito de ser e agir. Isso basta. Compreende que pode contar com aquele homem, mesmo que isso pareça improvável. Só de olhar para ele, já sabe o que ele pensa. Tem o poder de repreendê-lo. Faz isso com propriedade. Tornou-se uma mulher rabugenta, capaz de enfrentar o “idoso aborrecido”. E assim, os dois conseguem sorrir juntos. Sorriram juntos muitas vezes.  De repente, ela voltou a 2013. E já era Natal. Entregou depressa ao velho pai o papel com as palavras. E lá estava escrito apenas: “Sou muito agradecida. Te amo do meu jeito. Muito” A colunista está de férias. Esta coluna foi publicada em 20.12.2013

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