O existencialismo da imortalidade

Olhar de Jim Jarmusch sobre vampirismo concorreu à Palma de Ouro

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Imortais. Tom Hiddleston e Tilda Swinton confrontam pontos de vistas opostos sobre como encarar 
a eternidade
Paris
Imortais. Tom Hiddleston e Tilda Swinton confrontam pontos de vistas opostos sobre como encarar a eternidade

“Amantes Eternos”, que estreia hoje em Belo Horizonte, é um filme de vampiros de Jim Jarmusch. O que significa que, em vez de aterrorizarem pescoços indefesos ou seduzirem jovens donzelas, os personagens jogam xadrez enquanto conversam sobre Byron e chupam picolés de sangue. E no final, quando um deles perde, dispara “it was all the bloody talking! [foi essa conversa sangrenta maldita!]”.

Porque esse é o humor de Jarmusch, e esse é seu cinema: literato, cheio de referências, com um ritmo próprio e menos preocupado em preencher as lacunas de uma trama do que em discutir a vida, o universo e tudo mais. Assim como Wes Anderson ou Wong Kar-wai, o cineasta é um gosto adquirido e não faz concessões a quem não compartilha do seu senso estético peculiar.

Concorrente à Palma de Ouro em Cannes no ano passado, “Amantes Eternos” acompanha o romance dos vampiros milenares Adam (Tom Hiddleston) e Eve (Tilda Swinton, fazendo uma mistura de Bjork e Cleópatra). Ela ainda se permite fascinar pela beleza da vida e da arte, vive em Tânger e circula como uma diva de Kar-wai em meio às pessoas. Ele é uma mistura de Jim Morrison e Kurt Cobain que não teve a chance de morrer quando quis. Deprimido pelo mundo dominado por “zumbis” (como ele se refere aos humanos), Adam vive isolado em Detroit, uma cidade fantasma onde a vida parece ter desistido de tentar, e compõe o que ele chama de “funeral music”.

Quando Eve percebe o estado de espírito quase suicida de seu amado, ela parte ao seu encontro para levar um pouco de luz até ele. Mas Jarmusch está menos interessado em qualquer fiapo de trama do que em fazer um ensaio bem-humorado sobre essas duas formas opostas de encarar a imortalidade. Você pode obcecar com tudo que está errado e com a tendência maníaco-destrutiva do ser humano, como Adam. Ou você pode focar na beleza e na arte, e dançar, como Eve.

Como se tratam de vampiros, essa luz emanada pela personagem de Swinton não pode se refletir na fotografia. Então, Jarmusch faz uso da música, central na produção, para marcar essa transição. Quando Eve chega em Detroit, os acordes sinistros e melancólicos das composições de Adam dão lugar a canções românticas e ao soul. Ver Tilda Swinton dançando descompromissadamente ao som de “Trapped in a Thing Called Love” é daquelas cenas que você nunca soube que sempre quis ver até dar de cara com ela.

A aparência andrógina e meio alienígena da atriz nunca foi tão apropriada quanto em “Amantes Eternos”. Porque os vampiros do longa não são heróis. Eles são tão humanos quanto dois ETs que já vivem aqui há tempo demais. O diretor filma os dois primordialmente no muquifo de Adam, que parece um loft no Soho. Cercados de instrumentos, móveis e objetos que parecem ter sido acumulados por séculos, os protagonistas são enquadrados como naquelas fotos dos anos 1950, com pessoas cercadas de coisas, mas aparentando se sentirem incrivelmente vazias por dentro.

Em uma cena, Eve encontra um espécime de fungo no jardim de Adam que não deveria ter nascido ali, naquele lugar, naquela época. “Vocês dois não pertencem a esse lugar”, ela diz aos fungos, permitindo ao roteiro do próprio Jarmusch claramente refletir sobre a situação dos protagonistas.

O equilíbrio simbiótico entre o casal só é rompido pela chegada de Ava (Mia Wasikowska), irmã de Eve. A garota apresenta uma terceira opção de como encarar a imortalidade: não levar nada a sério e viver sem nenhuma consequência.

A imprevisibilidade infantil da garota é como se um animalzinho falante de um filme da Disney invadisse uma produção jarmuschiana, e o diretor se aproveita disso para abusar de seu humor sutil e quase imperceptível. Outro exemplo disso é a forma como os vampiros se alimentam no filme: o sangue é consumido como uma mistura de um prato francês, frugal e requintado, com uma dose de cocaína levando a um êxtase instantâneo.

“Amantes Eternos” é daqueles filmes em que, por vezes, o elenco parece se divertir mais que o próprio espectador. Especialmente Swinton, que nunca esteve tão à vontade e nunca viveu uma personagem (paradoxalmente) tão cheia de vida. O longa não deve mudar a opinião de quem acha o cinema de Jarmusch afetado e aborrecido. Mas para quem a sexualidade de “True Blood” e a assexualidade de “Crepúsculo” não são o bastante, a imortalidade existencial do diretor é a melhor opção.

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