Desconstruindo Frida Kahlo

“Solamente Frida”, da Cia. Garotas Marotas se apresenta hoje e mostra artista para além do mito que a cerca

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Morte. Cultura mexicana é fortemente marcada por aspectos mórbidos que são destacados pela dramaturgia do espetáculo acreano
Talita Oliveira / divulgação
Morte. Cultura mexicana é fortemente marcada por aspectos mórbidos que são destacados pela dramaturgia do espetáculo acreano

Alguns artistas têm vidas sociais tão intensas e cheias de reviravoltas – dignas de revistas de fofocas da atualidade – que essas se sobrepõem às suas produções. As extravagâncias de Salvador Dalí e sua esposa, os casos amorosos de Pablo Picasso, os romances homossexuais de Oscar Wilde, por vezes, vêm antes que suas importantíssimas contribuições para a arte. É o caso de Frida Kahlo, a mulher da sobrancelha “única”, das dores físicas, do casamento tumultuado com o muralista Diego Rivera. Sua vida e obra inspiram o espetáculo “Solamente Frida” – da Companhia Garotas Marotas, de Rio Branco, no Acre – que se apresentam hoje, no Sesc Palladium, dentro do projeto Palco Giratório.

“O que mais me impressionou era o amor que ela tinha pela vida, uma força de viver. Apesar de ser uma pessoa marcada pela dor – nunca conseguiu engravidar, por exemplo–, ela era uma pessoa extremamente carinhosa”, comenta Clarice Baptista, atriz que tem a função de dar vida a Frida no espetáculo.

A pesquisa para montagem do trabalho teve dois anos de duração e foi feita de maneira intuitiva, mas Baptista cita um momento fundamental para a compreender parte da essência de Frida Kahlo e do país de onde ela vem, o México. “Foi muito legal porque eu fui procurando nos livros que falavam dela e lendo, mas o mais legal foi ter ido a casa dela e ao México. É impressionante como a relação que eles têm como a morte é diferente. Aqui, nós choramos e sofremos muito. Lá eles celebram a morte e o Dia de Finados é uma festa: bebem, cantam e comemoram. Apesar de respeitarem o luto, os mexicanos entendem que a morte faz parte da vida”, relata ela.

Dessa forma, a morte personificada, de carne e osso, ganha espaço na trama com vez e voz, como um personagem. Além disso, destaque para riquíssima cenografia e caracterização das facetas de Frida e dos personagens paralelos apresentados pela peça. “Partimos da ideia da morte. A Frida esteve sempre cercada pela morte. A cenografia tem uma parte central, como um altar dos mortos, com fotos e comida, como eles costumam fazer por lá. As tradições são muito importantes para ela. O personagem do Nonato (Tavares, que divide a cena com Baptista) assume o papel da Morte, em alguns momentos ele é o pai, em alguns momentos Diego”, revela a atriz.

A dramaturgia se concentra nos aspectos humanos da personagem real – com as cartas que os fãs de Frida continuam a escrever e seu diário pessoal – para construir um espetáculo que faça emergir o que pode ultrapassar a condição de mito. “Escolhemos que ela falasse dela mesma”, ressalta Baptista. O texto destaca aquilo em que o público pode se reconhecer: os limites do corpo, a luta pela vida, a entrega às paixões e a mente criadora que enfrenta as adversidades do mundo em direção à transcendência pela arte. O espetáculo recorta aspectos da vida de Frida, em imagens e textos narrativos.

Parceria. Além de visitar o México, o coletivo acreano se valeu de uma importante parceria artística com os bolivianos do Teatro de Los Andes. Dirigido durante muitos anos pelo argentino César Brie, os bolivianos já vieram a Belo Horizonte algumas vezes, para se apresentar no Festival Internacional de Teatro (FIT BH Palco e Rua), com trabalhos marcados por cunho social, como “Outra Vez Marcelo” e “Em Um Sol Amarelo – Memórias de Um Terremoto”. Na sede dos estrangeiros, em uma “granja artística”, em Yotala, na Bolívia, foi construído boa parte do trabalho. “Eles foram ao Acre e eu gostei muito do trabalho deles. Eles ficaram receosos, porque eles nunca tinham dirigido algo de fora e só trabalhavam entre eles”, relembra Baptista.

Agenda

O quê. “Solamente Frida”

Quando. Hoje às 21h.

Onde. Sesc Palladium (rua Rio de Janeiro, 1.046, centro)

Quanto. Gratuito

Programe-se

O Palco Giratório oferece espetáculos gratuitos durante todo o mês de Agosto, nas dependências do Sesc Palladium e outros espaços abertos da cidade. A distribuição de senhas, para espaços fechados, começa com duas horas de antecedência.

Veja a programação em www.sescmg.com.br

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